Blog da Vivian Whiteman

A B…É MINHA! (É MESMO?)

Vivian Whiteman

Voz de um tipo de feminismo no qual eu acredito, a funkeira Deise Tigrona tem uma música chamada ''A Buceta é Minha''. Me desculpe você que fica indignado de ler isso assim com todas as letras, talvez você devesse se indignar com outras coisas, mas enfim, desculpe aí.

O funk fala sobre o direito de transar conforme seu próprio juízo sem ser tratada como vadia. Mas a frase bem que poderia ser objeto de análise mais ampla, estendida a mais assuntos na vida de cada mulher.

As personagens de uma interessante reportagem sobre o crescimento da cirurgia íntima, publicada pela Folha de S. Paulo, poderiam gritar esse bordão para se defender.  As moças mudaram seus pequenos lábios, há quem remodele o clitóris. Foram muito criticadas por toda parte, como se fossem a voz de um comportamento muito novo e chocante. Poderiam argumentar, como Deize, ''é minha, é minha, é minha''.

Pessoalmente,  o mais breve pensamento sobre mexer assim em território tão sensível e estratégico, sem que seja por absoluta necessidade médica, me dá arrepios. Piercings vaginais, doloridos que são conforme as corajosas que os usam (elas dizem que, depois de cicatrizados, são fontes de grande prazer, mas prefiro morrer sem essa alegria), me dão arrepios.  Tatuagens íntimas… Enfim, vocês entenderam.

Mas não há como negar que as plásticas íntimas fazem todo sentido no mundo neste momento, são parte de um sistema de valores e ideias decadente. E é hipocrisia fingir que não, que não tínhamos nos dado conta do atual estado da economia estético-libidinal da coisa toda.

 

 

Vejamos mais de perto:

Segundo os especialistas dizem no texto, a ideia é alcançar uma vagina estilo virgenzinha. Um estereótipo de virgem, é claro.  Virgens são mulheres e, portanto, são muito diferentes entre si. Tivessem prestado atenção na letra de ''Like a Virgin'', da Madonna, não estavam seguindo essas ideias de tropeço, mas enfim, continuemos…

Virgens brancas rosáceas com pêlos macios, o sonho da ''vagina inofensiva''.

E onde é que essas mulheres aprenderam isso? Onde é que foram exibidas essas imagens de certo e errado vaginal?

Há possibilidades  logicamente viáveis. Revistas masculinas ''fotoshopadas''. Soft porn bem produzidinho, com altos truques de iluminação. Nus artísticos em revistas de moda hype.

Porém, tenho um outro palpite interessante, que ajuda a completar o quadro. O corpo da moda, aquele vendido pelas maiores revistas, grifes e estrelas do mundo é todo ele infantilizado.  Ou seja, se é para ter peitos, coxas, barriga e pele de uma mocinha de 12 ou 13 anos, por que tanto assombro quando as moças resolvem completar o pacote com uma ''vagina zero quilômetro''? Não parece lógico dentro das regras do jogo?

Outra questão.

As moças estão fazendo essa cirurgia mesmo sabendo dos riscos de perder a sensibilidade local. No entanto, sobram relatos em diversas reportagens, entrevistas e vídeos sobre o assunto, nos quais mulheres que se submeteram à cirurgia dizem que o fizeram porque ficavam constrangidas diante dos namorados e maridos.

Ao que parece,  apresentar uma vagina ''alternativa'' ao padrão que elas acreditam existir estava estragando tudo na cama. Tanto, que seria melhor arriscar a sensibilidade física. Obviamente, mesmo depois da cirurgia, muitas não resolveram esses problemas. Outras, disseram que sim.

Se tantas moças e mulheres relatam sofrimento e depressão ao terem seus corpos analisados e rejeitados pelo olhar masculino (mesmo que muitas vezes os parceiros jurem que estão, e de fato estejam, felizes com o que estão vendo), porque isso ficaria restrito a um peitinho empinado ou a uma barriga chapada? Por que esse mal estar seria menor ao chegar no que, por estar sempre escondido, tem mais impacto de revelação?

E tem mais: a vagina pasteurizada ganha novo status: ela pode ser ''potencialmente'' exibida.  Vamos propor uma propaganda falsa, maluca, apenas sigam o pensamento: ''Amiga consumidora, imagine se suas fotos explícitas caem nas redes sociais? Sonha em ser fotografada saindo do carro sem calcinha como a Lindsay Lohan? Você está segura com o shape e a cor da sua região íntima? Não? Nós resolvemos para você!''. Entenderam?

 

 

Vejam que cenário detestável: no mundo pós-moderno contemporâneo, o ideal de muita gente é fazer sexo imitando cenas, gestos e mecanicismos de filmes pornô (e a que tipo de vida sexual lamentável isso pode levar…), e ter corpinho de boneco plastificado ou de criança.

Ou seja, tudo que seja ''atrito'', tudo o que fique no caminho de uma vida de boutique,  tudo o que não sirva para destruir o lado mais pulsante e menos Barbie do sexo e da vida deve ser ignorado, escondido ou eliminado de alguma maneira. É a corrente do ''não-me-toque'', do chocolate sem açúcar, da cerveja sem álcool.

Deize Tigrona e seu statement são importantes nesse momento.  Mas, nesse contexto e pensando sobre essas questões, como tornar verdadeira a frase ''a buceta é minha'', indo além do simples fato de ela estar entre suas pernas o que, sabemos, não garante soberania?

Se você, leitora, deseja realmente mexer nessa delicadeza toda, se coloque no seu próprio paredão.  Pense no porquê, mas pense a fundo, vá até onde dói mesmo, peça ajuda do seu analista (se você tiver a sorte de encontrar um que preste de verdade), converse com uma amiga, com um amigo, questione-se a ferro e fogo, pense.

Veja se, em vez de estar exercendo um direito, você não está cumprindo um dever, seguindo uma obrigação determinada por uma rede de fatores externos, imagens midiáticas e questões pessoais mal resolvidas que estão escravizando seu pensamento.

O bom é que essa fórmula serve para desenvolver um processo de tomada de consciência de nossos atos e desejos que dá para quase tudo na vida, então não vai ser tempo perdido.

E quando você ficar satisfeita ao menos com alguma de suas respostas, e mesmo que essa resposta revele algo que você não gostaria de admitir sobre si mesma, saia dançando no passinho e  cante ''é minha, é minha, é minha''.