Blog da Vivian Whiteman

Arquivo : agosto 2012

A B…É MINHA! (É MESMO?)
Comentários Comente

Vivian Whiteman

Voz de um tipo de feminismo no qual eu acredito, a funkeira Deise Tigrona tem uma música chamada “A Buceta é Minha”. Me desculpe você que fica indignado de ler isso assim com todas as letras, talvez você devesse se indignar com outras coisas, mas enfim, desculpe aí.

O funk fala sobre o direito de transar conforme seu próprio juízo sem ser tratada como vadia. Mas a frase bem que poderia ser objeto de análise mais ampla, estendida a mais assuntos na vida de cada mulher.

As personagens de uma interessante reportagem sobre o crescimento da cirurgia íntima, publicada pela Folha de S. Paulo, poderiam gritar esse bordão para se defender.  As moças mudaram seus pequenos lábios, há quem remodele o clitóris. Foram muito criticadas por toda parte, como se fossem a voz de um comportamento muito novo e chocante. Poderiam argumentar, como Deize, “é minha, é minha, é minha”.

Pessoalmente,  o mais breve pensamento sobre mexer assim em território tão sensível e estratégico, sem que seja por absoluta necessidade médica, me dá arrepios. Piercings vaginais, doloridos que são conforme as corajosas que os usam (elas dizem que, depois de cicatrizados, são fontes de grande prazer, mas prefiro morrer sem essa alegria), me dão arrepios.  Tatuagens íntimas… Enfim, vocês entenderam.

Mas não há como negar que as plásticas íntimas fazem todo sentido no mundo neste momento, são parte de um sistema de valores e ideias decadente. E é hipocrisia fingir que não, que não tínhamos nos dado conta do atual estado da economia estético-libidinal da coisa toda.

 

 

Vejamos mais de perto:

Segundo os especialistas dizem no texto, a ideia é alcançar uma vagina estilo virgenzinha. Um estereótipo de virgem, é claro.  Virgens são mulheres e, portanto, são muito diferentes entre si. Tivessem prestado atenção na letra de “Like a Virgin”, da Madonna, não estavam seguindo essas ideias de tropeço, mas enfim, continuemos…

Virgens brancas rosáceas com pêlos macios, o sonho da “vagina inofensiva”.

E onde é que essas mulheres aprenderam isso? Onde é que foram exibidas essas imagens de certo e errado vaginal?

Há possibilidades  logicamente viáveis. Revistas masculinas “fotoshopadas”. Soft porn bem produzidinho, com altos truques de iluminação. Nus artísticos em revistas de moda hype.

Porém, tenho um outro palpite interessante, que ajuda a completar o quadro. O corpo da moda, aquele vendido pelas maiores revistas, grifes e estrelas do mundo é todo ele infantilizado.  Ou seja, se é para ter peitos, coxas, barriga e pele de uma mocinha de 12 ou 13 anos, por que tanto assombro quando as moças resolvem completar o pacote com uma “vagina zero quilômetro”? Não parece lógico dentro das regras do jogo?

Outra questão.

As moças estão fazendo essa cirurgia mesmo sabendo dos riscos de perder a sensibilidade local. No entanto, sobram relatos em diversas reportagens, entrevistas e vídeos sobre o assunto, nos quais mulheres que se submeteram à cirurgia dizem que o fizeram porque ficavam constrangidas diante dos namorados e maridos.

Ao que parece,  apresentar uma vagina “alternativa” ao padrão que elas acreditam existir estava estragando tudo na cama. Tanto, que seria melhor arriscar a sensibilidade física. Obviamente, mesmo depois da cirurgia, muitas não resolveram esses problemas. Outras, disseram que sim.

Se tantas moças e mulheres relatam sofrimento e depressão ao terem seus corpos analisados e rejeitados pelo olhar masculino (mesmo que muitas vezes os parceiros jurem que estão, e de fato estejam, felizes com o que estão vendo), porque isso ficaria restrito a um peitinho empinado ou a uma barriga chapada? Por que esse mal estar seria menor ao chegar no que, por estar sempre escondido, tem mais impacto de revelação?

E tem mais: a vagina pasteurizada ganha novo status: ela pode ser “potencialmente” exibida.  Vamos propor uma propaganda falsa, maluca, apenas sigam o pensamento: “Amiga consumidora, imagine se suas fotos explícitas caem nas redes sociais? Sonha em ser fotografada saindo do carro sem calcinha como a Lindsay Lohan? Você está segura com o shape e a cor da sua região íntima? Não? Nós resolvemos para você!”. Entenderam?

 

 

Vejam que cenário detestável: no mundo pós-moderno contemporâneo, o ideal de muita gente é fazer sexo imitando cenas, gestos e mecanicismos de filmes pornô (e a que tipo de vida sexual lamentável isso pode levar…), e ter corpinho de boneco plastificado ou de criança.

Ou seja, tudo que seja “atrito”, tudo o que fique no caminho de uma vida de boutique,  tudo o que não sirva para destruir o lado mais pulsante e menos Barbie do sexo e da vida deve ser ignorado, escondido ou eliminado de alguma maneira. É a corrente do “não-me-toque”, do chocolate sem açúcar, da cerveja sem álcool.

Deize Tigrona e seu statement são importantes nesse momento.  Mas, nesse contexto e pensando sobre essas questões, como tornar verdadeira a frase “a buceta é minha”, indo além do simples fato de ela estar entre suas pernas o que, sabemos, não garante soberania?

Se você, leitora, deseja realmente mexer nessa delicadeza toda, se coloque no seu próprio paredão.  Pense no porquê, mas pense a fundo, vá até onde dói mesmo, peça ajuda do seu analista (se você tiver a sorte de encontrar um que preste de verdade), converse com uma amiga, com um amigo, questione-se a ferro e fogo, pense.

Veja se, em vez de estar exercendo um direito, você não está cumprindo um dever, seguindo uma obrigação determinada por uma rede de fatores externos, imagens midiáticas e questões pessoais mal resolvidas que estão escravizando seu pensamento.

O bom é que essa fórmula serve para desenvolver um processo de tomada de consciência de nossos atos e desejos que dá para quase tudo na vida, então não vai ser tempo perdido.

E quando você ficar satisfeita ao menos com alguma de suas respostas, e mesmo que essa resposta revele algo que você não gostaria de admitir sobre si mesma, saia dançando no passinho e  cante “é minha, é minha, é minha”.


Hipster ou mendigo?
Comentários Comente

Vivian Whiteman

Esquema blogueiro para entender por que essa piada é uma aulinha rápida de moda:

Tradução:

O Mendigo usa

barba

cardigã

jeans surrados

(carrega uma revista de bairro)

O hipster usa

barba “irônica”

cardigã de grife

jeans novos com efeito surrado

(carrega um iPod ou ipad)

Como interpretar

O que os “donos” da moda dirão:

1 – É tudo uma questão de ponto de vista e de inspiração

2 – Trata-se de uma versão sofisticada do “estilo das ruas”

3 – A ideia não é ridicularizar os mendigos, mas se inspirar numa certa forma “desencanada” de encarar a moda

4 – Embora os looks sejam idênticos, os materiais usados na roupa do hipster são obviamente mais nobres e, na verdade, os looks não são idênticos, são similares porque dividem uma mesma “referência”

5 – Ninguém está querendo sacanear os mendigos. Ninguém está querendo ser politicamente correto. Nem incorreto. A inspiração é “bacana”, assim, de modo neutro.

O que um fashionista sincero dirá:

1 – É uma diferença de conta bancária, basicamente

2 –  A versão não é tão sofisticada assim. Afinal, trocar o material e o corte ruins por outros melhores não é exatamente uma ideia brilhante…

3 – A ideia é brincar de ser pé-rapado e ferrado sem ter de passar por isso. Uma espécie de café descafeinado versão fashion. Ou seja, o mendigo parece estiloso e tem esse ar largado interessante (talvez seja a falta de comida, dinheiro e casa, hã? Que tal essa explicação? A colocação aqui, como a barba, é irônica…), mas ninguém quer ficar na sarjeta para entrar no modelo, correto?

4 – A pessoa fictícia 1, considerada “fora de moda” dirá: poxa, cara, mas essa roupa tá meio de mendigo. A pessoa fictícia 2, “com informação de moda”, notará a ironia da barba e dirá que a pessoa 1 é careta e preconceituosa. Uma pessoa que trabalha no banco e ganha salário mínimo provavelmente não poderá ir trabalhar com o look hipster. O herdeiro do banco ou um top publicitário, sim

5 – A moda está sempre em cima do mudo quanto a questões éticas e polêmicas. Quando uma empresa toma partido, em 99,9%  é porque essa mudança dá lucro

A dica que fica

Muitas vezes, a ironia da moda funciona, digamos, como um mini tapa-sexo estilo Carnaval para a luta de classes que se espelha na questão das roupas_ a coisa está toda ali exposta, mas, oficialmente, ninguém está mostrando nem vendo nada.

 


Carminha x Nina, o remix do xadrez em branco e preto em “Avenida Brasil”
Comentários Comente

Vivian Whiteman

A saga de “Guerra nas Estrelas” nos ensinou uma coisa: os bonzinhos vestem branco e cores claras, e os malvados vão de preto e outros tons escuros, certo?  Não segundo as figurinistas de “Avenida Brasil”.

Bom,  George Lucas e sua equipe seguiram a tradição.  A escuridão,  a noite e suas cores foram identificadas desde tempos muito antigos a sensações de medo, insegurança e às trevas,  no sentido mais “terror japonês”, mais infernal, do termo.

Já o branco, enfim, dispensa explicações. A ideia de luz, o esclarecimento, o iluminismo,  sobram referências históricas, culturais e artísticas para dar conta das virtudes dos tons claros e luminosos.

Mais, oi, oi, oi, de volta à novela. Carminha, a vilã, veste branco. E bege, pitadinhas de rosa. Nada mais meigo, nada mais límpido.

 

A primeira explicação é a seguinte. Bom, enquanto vilã, Carminha está disfarçada de Jedi, de lado bom da Força. Mas será?

Ok, ela foi bem-sucedida até agora em pagar de boa esposa e de mulher decente, ao menos para o marido e mais uma penca de enganados.  Mas geral sabe que, até certo ponto, Carminha não é flor que se cheire.

O branco e o rosa, numa segunda análise, parecem quase uma provocação. Como é quase uma provocação, um fetiche, uma noiva casar de branco nos dias de hoje. As noivas virgens que me perdoem, mas, gatas, vocês são exceção. Uma exceção que eu pessoalmente não recomendaria, mas, enfim, cada um com suas convicções, respeito.

Viajando um pouco na referência, e o que seria da moda sem a viagem, me lembrei do vestido de casamento da cantora Gwen Stefani. Assinado por John Galliano, vejam que politicamente incorreto em retrospecto… Mas lindo, lindo de morrer.

Branco, com a cauda manchada de rosa, o vermelho diluído… Como quem diz,”bem, o branco está meio manchado de sangue porque…”.   Conhecer no sentido bíblico, vocês sabem…

Mas a Carminha, claro.  Seria mais ou menos óbvio se a lôra se vestisse de preto, de roxo, se fosse uma prima de Cruela DeVil, tipo a Melissa de “Amor Eterno”?

Carminha é uma vilã debochada.  Seu uniforme de rica boazinha emergente é um falso disfarce, quase uma fantasia de Carnaval, um tapa na cara da sociedade, como são suas ações. É como se ela perguntasse: “E aí, otários,  hipócritas, até onde vocês vão me deixar ir com essa farsa, até quando vocês vão fingir que não sabem?”.

É aí que entra Nina/Rita, uma mocinha bem específica. Das roupas ao uniforme de empregada, Nina veste preto. Vinho. E vermelho-sangue. Nina vem de Darth Vader, de Império, o lado negro da Força.

Mas, por que, se ela é be boazinha? Bom, boazinha? Ela não é boazinha mesmo. Vingativa, invejosa!!! Magoada e torturadora de mão cheia. Suas intenções e atos, no entanto, são movidos, teoricamente, pelo desejo de justiça. Mas igualar os meios do inimigo justificam os fins da justiça?

Às vezes, sim. Para nos mantermos na ficção, veja Uma Thurman, a Black Mamba de “Kill Bill”. Ah, ali temos um uso digno de fins violentos para a execução de um plano de justiça.  Na linha legítima defesa, embora não nos termos específicos da lei. A lei, sabemos, às vezes é insuficiente, não é mesmo?

Mas e Nina? Nina que quer os privilégios de dondoca de Carminha? Nina que se acha a heroína, mas cada vez mais quer tomar o lugar da vilã? Nina confusa e cega de ódio. Uau!!!

Nina e seu colarzinho de cozinheira boazinha, do tipo que ama as colheres que pilota. Nina, um verdadeiro urubu de avental.

A mocinha-vilã é de fato um achado da teledramaturgia.

E a relação entre ela e Carminha é ainda melhor e mais rica.

Nina é a redenção de Carminha. É, apesar de tudo,  o alívio, o castigo que toda vilã secreta ou inconscientemente pode desejar. Aquela que sabe de tudo e exige reparação.

Sabe-se lá o que os roteiristas incríveis dessa novela vão arrumar para o final das duas.

Mas essa batalha maluca entre o branco e o preto, o remix do xadrez clássico proposto por essa novela, é de prender a respiração e deve ter um desfecho à altura dramática de  “Luke, I am your father”.

George Lucas aplaudiria.

Bjs,

VW

#nerrrvosa


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>