Blog da Vivian Whiteman

Arquivo : julho 2012

LEVANTE A CABEÇA, MASSA-RAINHA
Comentários Comente

Vivian Whiteman

Já faz mais de um ano que o príncipe William se casou com Kate Middleton, em abril de 2011, no que foi noticiado mundialmente como “o casamento do século”.  Começava a ali exportação da imagem de uma nova princesa, mesmo sem título oficial. A princesa  é a mulher do príncipe e, para quem não está interessado em detalhes chatérrimos de coleirinhas de nobreza, basta.

Neste ano, nova festa real. Não só os ingleses, mas todo o mundo celebrou o jubileu de diamantes da rainha Elizabeth. Os itens comemorativos da data viraram item cult de decoração mundo afora.

E, na moda, o eterno tema da realeza fez mais um de seus revivals. Desta vez, um bem poderoso.  A “princesa” Middleton virou ícone de estilo e está com tudo. Já a rainha velhota voltou a ser lembrada como exemplo da pretensa elegância eterna dos donos do castelo. Não se trata, fique claro, dessas mulheres em si, mas da ideia de que o mundo renovou sua vitrine de soberanas (em nova embalagem, mais simpática e modernizada), ideia essa que tomou as coleções, de diversas formas.

Pode ser como na Chanel, com a coleção realeza francesa do resort de Karl Lagerfeld. Pode ser como a nova coleção de Raf Simons para a alta-costura Dior, com as rainhas da alta-sociedade. Pegue a coroa e acrescente o tempero da casa, é assim que funciona.

As Mariazinhas Antonietas da Chanel  são tão descoladinhas, tão rebeldes… As ricas de Simons são tão práticas com seus vestidos que viram tops de luxo pra usar assim, casualmente, com calças,  tão ousadas com seus mamilos estilo “farol aceso”… Só que não.

As  mocinhas Chanel estão dizendo: somos herdeiras. As mulheres da Dior estão dizendo: somos herdeiras. Herdeiras de quê?  Das muitas faces da concentração de renda mundial. A realeza antiga, a nova realeza do capital, ora juntas, ora separadas, farinha do mesmo brioche. Em linguagem fashionista: “as ryca”.

As imagens de princesas e rainhas fascinam a moda (e não só ela) há séculos porque falam de modelos de elegância que foram impostos ao longo dos séculos. Vale lembrar, no entanto, que às custas de massacres do povo, da “ralé cafona”.  “Só os nobres, os ricos e seus representantes é que têm bom gosto. Só eles [os detentores do capital] podem gerar rainhas, princesas do estilo”, é como se fosse esse um dos subtextos dessa tendência.

Vejam que,nesse contexto, não importa se, em si, Kate Middleton não passe de um inglesa bonitona, arrumadinha e esguia. Não importa que Maria Antonieta vivesse enfiada em perucas nojentas e cheias de pó. Não importa se Anna Wintour  faça o estilo cabelão capacete e paute o que é chique de acordo com acordos publicitários interessantes para grupos bilionários. O lugar que elas ocupam é que é o ditador de modas, um lugar de poder.

No momento, por exemplo, as rainhas da moda estão olhando para um certo conceito de moda popular.

Um movimento, sabe-se, motivado por razões comerciais, embora envolva uma série de outros elementos.  É preciso cativar mais consumidoras, usar elementos estéticos que tenham um pé numa leitura geral do que é  “massa”.

E pra quê? Elementar, minha cara fashionista.  As soberanas dizem: “vejam, garotas agora NÓS, estamos dizendo que vcs estão na moda. Mas do NOSSO jeito e com os NOSSOS termos”. Mudar para continuar o mesmo, ô ideia que vem rendendo século após século…

Vai vendo…

E daí que dia desses eu vi o clipe novo de uma cantora muito talentosa. Uma moça linda de São Paulo chamada Lurdez da Luz, já ouviu? Não? Ah, por favor, vá atrás dela.

Lurdez lançou um novo clipe chamado “Levante”. O figurino é bacana, meio passista, meio periguete, meio militar. Um dos looks inclui uma peruca branca dessas de rainha antiga, colar imitando joias “da coroa”.

Poderia ser só mais uma gracinha, não fosse a música. Fala de poder popular. De mulheres (e homens também, claro) combatentes. Chama pra briga, bate no peito. Grande garota, essa Lurdez, cheia de referências boas,  de mãos dadas com o rap, papo reto.

Veja o clipe aqui:

watch?v=Hk6Ou10-eBA

O clipe me fez pensar que passou da hora de reescrever esse lance de rainha. A música da Lurdez, tão acertada na letra, na batida e no timing, me inspirou uma imagem de rainha popular no sentido de transferência do lugar de poder. Chega de troninho, sabe?

Chega de soberanos que reencarnam na vida e nas fantasias da moda, sempre com carinhas meio diferentes, mas o mesmo discurso. Chega de endeusar o uniforme de poder e os manuais de certo e errado de uma elite que se deu, entre muitos outros poderes, o de decidir o que é bonito, o que é chique.

Em vez de um grupinho de meia dúzia ditando regras para uma multidão de bilhões, que tal elevar a figura desses bilhões ao lugar de quem tem o poder de decidir? Rainha da massa é teu passado, que tal uma massa-rainha? Ideia a considerar seriamente, hein?

Proletárias, moças e mulheres trabalhadoras, uni-vos, nem que seja, por enquanto, para repensar a tirania do estilo. Como diz a Lurdez, a levada é pra levante.

Pensar nunca é tendência na Vogue America (nem em um monte de revistas que pagam de moderninhas, mas seguem a mesma cartilha).  Mas, enfim, vocês estão nessas ainda? Ai gente, sai desse  complexo de Europa Antiga, se liberte desse encosto de Tio Sam que não te pertence. E cuidado com os fake revolucionários (inclusive entre os “sustentáveis”) que são a nova face do castelo.  Massa rainha é o que liga, vai por mim que essa é boa, vamos desenvolver essa ideia, hein, Brasil? Fica a dica.

Bjs pensativos

Vivi


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>