Blog da Vivian Whiteman

Parte 2

Vivian Whiteman

 

Pare, respire, dê um pivô. Tá de boa, vai?

 

Parte 2  – Que vantagem Maria leva?

 

Daí se desenha um retrato interessante. No Fashion Rio, evento de coleções que em sua maioria são ''remixes'' assinados, há um elemento de colonialismo, da admiração dos locais pela ''metrópole'' colonizadora.

 

Por um  lado, assumir essa relação talvez seja um primeiro passo, senão para mudá-la, para vivê-la da melhor forma possível. Sim, o Brasil é um país jovem perto do Velho Mundo, foi colônia por muito tempo e escravo do FMI e das grandes potências decadentes até anteontem. É normal que a moda ainda esteja refletindo esse processo histórico.

 

E a moda francesa, a moda italiana, são mais antigas e mais experientes, têm mais recursos em vários sentidos, da bagagem histórica à indústria organizada. Também é natural que não só um certo grupo de consumidores, mas que muitos designers e equipes de estilo, as vejam como ''irmãs mais velhas e chiquérrimas'',como as garotas mais cool e populares da escola.

 

Mas, mano, por outro lado, o jeito que a gente vê o outro (e o que achamos que pensam de nós) é que ajuda a definir o que a gente é. Tem um caminho sendo trilhado, vão vendo, vamo acordando.

 

E para quem fala tanto de informação e cultura de moda, saibam que,  do bê-a-bá às funções mais complicadas, o cérebro aprende via repetição. Assim, as grifes de difusão que hoje podem entrar no orçamento da classe C são responsáveis por um trabalho de treinamento do olhar do consumidor, na base da repetição do que já foi mostrado pelas grandes semanas internacionais e por alguns criadores brasileiros. Digo criadores no sentido mais tradicional de como isso é compreendido na história da moda (sim, eles existem no Brasil, e são muito muito bons!!! Aguardem post).

 

Então, que tal os comentadores virarem esse disco de chororô e indignação meia-bomba (ohhhh, as grifes copiam)? E que tal o Fashion Rio abraçar as classes B e C? Os anunciantes estão loucos por esse público. Hellooooooooo.

 

E, fashionistas, nem só de roupas perfeitas e babado conceitual se faz o guarda-roupa e o mercado. É claro que o FR pode manter sua porção de grifes para o público mais rico e até de conceituais, seja lá o que isso for nesse caso. Mas esse não seria o foco.

 

Vamo partir pra briga, Brasil!

 

Por que não existe na passarela nenhuma grife com culhões de assumir o estilo Suelen, o naipe Valesca Popozuda? Tipo uma marca sucesso do baile, como foi a Gang.  Por que ignorar o batalhão de moças de calça justa com meia esportiva branca usada por cima, esticada até quase o joelho? Alguém que olhasse pra isso com inteligências viraria cult em dois tempos.

 

Por que em geral não se aproveita o que tem de mais fora das regras na moda de rua? Todos perdem sendo tão metidinhos, com tanto medinho de ser cafona. Até a primeira maison gringa copiar, claro… Tererê com pena é caro hoje em dia no Upper East de NY… Brinco de pavão do camelô de praia tá nas butiques francesas. Fica a dica para os bons entendedores, assim, uma passadinha real do que está acontecendo e vou comentar em post futuro.

Agora o twist do limão, a mente do vilão, o avesso do avesso do avesso:

 

A popozuda e a malhafunk cariocas não seriam bons exemplos de sucesso do fenômeno ''antropofágico'' que citei mais acima? Elas surgem de um desejo pela imagem Los Angeles-Miami das gostosas, vinda da ''linha evolutiva'' (cof) das bombshells. Mas o lance é que essa imagem é tão modificada no processo pelo qual o gosto e o comportamento locais se apropriam dela, que se transforma em algo novo. E isso é…criação!

 

Ou seja, vamos confrontar a realidade, Brasil. Batendo de frente com todos os seus complexos, não só o Fashion Rio, mas a moda brasileira em geral, podem ganhar muito.

 

Aqui no pé do morro é nóis que tá, filha, se deu tilt é pq tá rolando

 

Post da próxima quinta: afinal, o que é chic? O que é cafona?

 

Vou ali botar meu top

Besos pras (sen)Suelens,

VW