Blog da Vivian Whiteman

Fashion Rio, mostre a sua cara!

Vivian Whiteman

 

Parte 1 – Mais um verão desfilado. E agora, José?

 

Chega de preguiça, se vc curte moda leia até o fim.

 

Babado e confusão essa edição do Fashion Rio que terminou no último sábado. Nada demais na passarela. O bafo rolou nos bastidores e nos comentários.

 

Acabo de receber o email de um leitor questionando o desfile da Aüslander e apontando semelhanças com a Givenchy. Muita gente veio falar da performance da grife Reserva, tipo ''comercial de margarina'' moderno encontra versão de Glee feita pela oitava série B. Há também uma unanimidade sobre a falta de novidades.

 

Desde que comecei a cobrir moda sistematicamente e com exclusividade, o que foi lá pelos idos de 2005, todo mundo reclama desse evento. Digo, a história de cópias  e falta de novidades é recorrente. Poucos são os jornalistas que escrevem isso, no entanto. Nem sempre porque não queiram, mas porque muitas vezes não podem fazê-lo por conta dos compromissos comerciais dos veículos para os quais trabalham.

 

Pois bem, vou servir aqui de porta-voz das reclamações que me fazem e dar minha percepção desse balaio de gato fashionista.

 

Meus statements. O Fashion Rio vem desenvolvendo e tem, no momento, vocação para ser um evento de massa, direcionado sobretudo (o que quer dizer principal,ente, mas não exclusivamente) aos olhos do público. No momento, não é um evento que ofereça material suficiente para crítica de moda tradicional.  Por outro lado, é ótima fonte para analisar comportamento e opções de mercado.

 

Alguém dirá, ai, não entendi…

 

Vamos lá, step by step, uh-babe:

 

1 – O Brasil é um país de dimensões continentais, lembra disso na aula de geografia? Pois é… Daí que a massificação é desde sempre um ponto de partida para a difusão de qualquer coisa nessa nossa terra. O mesmo vale para a moda. Há as cenas e mercados regionais, mas a difusão de um moda que se pretenda nacional tem de passar por processos de massificação.

 

2 – Isso ocorre de várias formas. Uma delas, das mais efetivas, são as redes de shopping e as multimarcas. São elas que fazem circular um mesmo produto no país inteiro.

 

3 – Em termos de imagem, a grande difusora de moda do Brasil é a TV. São duas as maiores fontes espalhadoras de desejo mostradas na TV brasileira. A – As novelas da rede Globo B- Os blockbusters de Hollywood. Esse sistema depois será reproduzido em revistas especializadas e de celebridades, nos sites, gerando subcriadores de desejos, desde a editora de moda até a blogueira fashion. Mas não há Anna Wintour no Brasil que se compare à força de uma boa protagonista de novela das 20h/21h. Não há quem chegue perto disso, nem de longe.

 

Um salve para Marília Carneiro e todo o departamento de figurino da Globo, ali tem munição pra brigar com Deus e Diabo na terra do sol, Brasil!!!

 

4 – O Fashion Rio fica no Rio (c jura???), sede do Projac, a Hollywood local. Circulam pelo evento atores e atrizes, cantores, enfim, rola uma social forte  (deveria ser mais forte ainda). O que gera um desejo pelos convites, por estar no evento, por fazer parte dessa festinha, por ver as fotos, os vídeos E…por comprar as roupas, por menos inovadoras e preciosas que sejam, acredite, pouca gente realmente se veste querendo inovar horrores e pouca gente pode pagar pelo melhor corte, o melhor tecido.

 

Dito isso, vamos lá. O Fashion Rio dialoga com esses universos-chave para entender o Brasil: shopping center/multimarcas e indústria de celebridades. As grifes que se destacam lá fazem roupas de tendências já manjadas pelos fashionistas, mas que ainda estão sendo assimiladas pelo público em geral. E a maioria esmagadora de quem movimenta o comércio fashion está nesse segundo grupo.

 

O Fashion Rio tem duas forças. 1 – A moda praia, que é a melhor e a mais descolada do mundo, não há dúvidas. 2 – A difusão e a valorização dos grandes negócios de moda feitos para vender, em massa,roupa com informação de moda, mas sem grandes invenções.

 

Há algo que ninguém gosta de admitir, o que demonstra o quão jacu e complexada ainda é nossa mídia fashion, o que reflete a mentalidade  (e também os interesses mal escondidos) de muitos designers e empresários.

 

Um dos maiores trunfos do Brasil em termos de moda é sua vocação para fast-fashion, que vem em parte do nosso gigantismo geográfico.  Basta ver a força de C&A, Renner e até mesmo da Zara no país. Grifes como Colcci e TNG estão aproveitando esse fato e merecem respeito por isso porque, em termos de negócios,  fortalecem o mercado.

 

Desse bolinho, no futuro e com certas condições estruturais,  pode emergir uma nova H&M criada no Brasil. Uma nova TopShop. E por que não? Uma loja em cada Estado e já teríamos um novo megabusiness. Sem contar o potencial das grandes capitais. Vale lembrar que a TopShop, tão amada pelos fashionistas, só trabalha com tendências já dadas e desfiladas.

 

A TopShop, inclusive, tem uma linha mais chiquezinha que desfila na semana de moda de Londres…

 

A Colcci, aliás, deveria voltar a desfilar no Rio. Imaginem Ashton Kutcher, o quanto renderia a mais na mídia em solo carioca? Lá faria sentido um tapete vermelho, ia ser loucura e gritaria. E as demais grifes também poderiam abraçar sem culpa o truque da celebridade na passarela. É uma arma super válida quando se assume que o foco é valorizar uma roupa, assim, descoladinha.

 

O Fashion Rio deve se assumir como foco da social fashion, da praia e da roupa de difusão. Melhor ainda  seria acrescentar nesse bolo  um plus que faz TODA a diferença. O fermento da cópia abrasileirada. Da referência adaptada, como faz a TV quando compra programas gringos.

 

A cultura dominante (seja o star system americano ou as maisons europeias para as quais tanta gente  paga pau, com certa razão) temperada e mastigada segundo as características, necessidades e questionamentos locais. Estamos falando disso desde a Semana de Arte de 1922, não? O manguebeat fez isso. O tecnobrega faz isso. Os bons remixes de música eletrônica. O rap. Cada um acrescentando suas questões. Hello.

 

Mas, como jornalista, não vou fugir do samba. A mídia também precisa repensar a cobertura do evento. Lá não se propõe o último grito da tendência nem a perfeição arquitetônico-formal da roupa.

 

Vamos ver então COMO o Brasilzão se apropria dos gringos. De quem eles estão escolhendo copiar e o q isso significa? O que realmente pegou das tendências gringas e que estão sendo reproduzidas pelas marcas, e como isso pode ser um mapa do gosto local? Como está a fila da balada, qual é o look mais insano do baile funk, no calçadão o que as gringas estão comprando como suvenir, qual é a canga-sensação do povão turista, que marca está pagando qual atriz da Globo para ir ao desfile, enfim, a pauta é gigante e variada, tem pra todo mundo.

 

O governo do Rio criou, aliás, uma coisa chamada ''estilo RJ'', campanha de valorização do charme local, com fins óbvios de exportação de todo o chamado lifestyle local. Hellooooo.

 

 

(continua)