Blog da Vivian Whiteman

O Sol acima dos hipsters e o verão do Best Coast

Vivian Whiteman

Best Coast tem sido minha nova banda preferida nos últimos tempos. Talvez porque eu esteja sonhando, desde o ano passado, com umas férias maravilhosas de verão que ainda não rolaram. E essas férias seriam um misto de passado triste e esperança bate-no-peito, sabem como?

E aí que recebi a notícia que Bethany Consentino, ou seja, o Best Coast em si, lançou uma linha de roupas para a Urban Outfitters, na minha opinião, uma das melhores fast-fashion e multimarcas do mundo.

Look da linha de Bethany

Ok, a Urban é meio hipster… E o Best Coast também… Serei eu uma hipster enrustida? Ah, por favor. Essa coisa de hipster é um saco, e não é porque os marqueteiros inventam um novo nicho de mercado que a gente precisa fingir que não gosta de certas coisas só pra não entrar na dança.

E deixem pra lá essa história de hipster, ô coisa chata.

Bethany diz que se inspirou nos anos 90 para criar a coleção. Mais exatamente em filmes tipo ''As Patricinhas de Beverly Hills'' e ''Jovens Bruxas''. Quem, como eu, era adolescente na época, vai catar rápido o que isso significa.

Os 90 são a bola da vez na moda, disso você já deve saber. Mas, afinal, o que foram os 90 em termos de moda? Um tempo de tentar rever certos clássicos a partir de um viés decadente. Meio rindo, meio chorando.

Os grunges de um lado, com os cardigãs de vovô esfarrapado, o jeans rasgado, as botas de exército detonadas. Uma mistura do almofadinha dos anos 60, o largadão 70 e o soldado, passado por um triturador de referências. Também estavam lá os clubbers, uma versão do look psicodélico só que sem esperança, uma espécie de hippie que em vez do flower power abraçasse o slogan ''no future'' dos punks. A estética do ecstasy, dos paraísos químicos sem causa.

E onde se encaixa a coleção de Bethany?

 

Bethany canta

Filmes como ''Patricinhas'' e ''Jovens Bruxas'' são mais interessantes do que parecem. Falam de uma geração de mulheres que também passou no liquidificador os estereótipos femininos. As garotas populares da escola que não queriam ser burras, fúteis e vagabas. As não tão populares, as esquisitas, que em vez de serem ''queimadas'' feito antigas bruxas, resolveram botar pra quebrar. Garotas perdidas entre a promessa de nunca crescer e os papéis sociais lamentáveis oferecidos pelo mundo adulto.

Não se esqueçam que, nos anos 90, bandas como Hole, Bikini Kill e L7 renovaram as ideias que as moças tinham sobre feminismo e liberação feminina. Ok, parte delas se mostrou equivocada, mas os erros fazem parte da coisa. E, é preciso ressaltar, muitas moças de corações aflitos sofreram menos por conta das músicas que essas garotas cantavam. No Brasil, bandas como o Pin-Ups fizeram a ponte com esse tipo de som, abrindo caminho para outros grupos.

Courtney Love nos primórdios do Hole

No cinema, Winona Ryder, Liv Tyler, Brittany Murphy (RIP) e outras gatas viviam papéis de moças confusas em filmes indie cheios de música e dúvidas.

Winona Ryder, a shoplifter mais linda do mundo

 

Os 90 também liberaram a androginia na pista, os meninos e meninas se perguntavam afinal o que era ser homem ou mulher, uma das perguntas mais importantes da psicanálise e, portanto, da vida. As respostas ainda estão sendo construídas, por cima de toda a imbecilidade, por cima de todo o preconceito e por cima de todas as dificuldades reais que esse tipo de questionamento envolve.

Foram bons os péssimos e decadentes anos 90, sabiam? Porque ao menos havia a consciência da crise, havia certa consciência do horror e, com pouca esperança, chutava-se portas como se não houvesse amanhã. Ok, talvez seja um pensamento nostálgico, mas há verdade nele. Mas aí chegou 2001 e o mundo se retraiu com medo da tragédia televisionada. Com a ameaça furada do Hollywood nuclear.

A moda não criou nada disso, mas refletiu tudo isso.

Então talvez seja interessante revermos, agora, mais de dez anos depois do 11 de Setembro, que abriu as portas para uma nova era de trevas, os mágicos anos 90. Sementes estavam sendo plantadas lá.

Não será uma coleção da Urban que vai mudar o mundo, temos certeza disso.

 

Jovens bruxas

Mas eu quero aproveitar essas minhas férias de verão, que virão, pra ouvir Best Coast e pensar no que foi interrompido pelo medo de viver. As músicas de Bethany fazem pensar num lugar tão bom que não existe. Como as minhas férias de verão utópicas: podem até acontecer mas não serão como são na minha mente. Isso não me impedirá, no entanto, de tirá-las. Entenderam? Não? Então leiam de novo, está tudo aí. Tentativa e erro, tentativa e erro, o segredo está na repetição, não na fórmula. A moda ajuda tanto a entender isso, porque, como diz nossa guru Costanza Pascolato: ''na releitura de época tem sempre algo de diferente, muito discreto, é aí que devemos parar os olhos''.

Como a moda, a vida é feita de releituras. Aliás, a moda não faz nada que não seja refletir a vida. Por isso é bom ficar de olho em quem está controlando o espelho. Fique atenta, amiga, faça você mesma o seu Sol de verão.

E não se esqueça de abrir as asas quando encontrar outra andorinha tru  😉