Blog da Vivian Whiteman

Arquivo : março 2012

Carta aos novos jornalistas de moda (ou fashionistas, estudai!)
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Vivian Whiteman

Dar aulas, pra mim, é um grande prazer. Mais do que isso, é a oportunidade de dar às pessoas que se inscrevem uma coisa que me faltou em muitos cursos que fiz ao longo dos anos.

Recursos audiovisuais? Apostilas? Pencas de imagens? Não. Sinceridade.

Não é questão de encher a minha bola. Mas  o fato é que eu sempre pensei nisso simplesmente porque teria facilitado muito a minha vida: se um dia der aula, vou falar a verdade. Que tipo de verdade? A verdade da minha experiência, reportar o processo do meu trabalho a quem pudesse interessar.

Desde o meu primeiro estágio, aos 17, trabalhei com jornalismo. E vi muita coisa. E aprendi muita coisa, aprendo todos os dias. Durante a faculdade, me impressionava a distância entre o que os professores diziam e a realidade das redações. Chegava a ser ridículo.

Por isso sempre repito minha ladainha: procurem saber da real. Estudem além do cercadinho da moda. Desafiem. Perguntem. Leiam loucamente. Estudem mais. Olhem. Treinem o olhar diariamente. Saiam da casinha. Não tenham medo. Aprendam com os erros. Não se deixem intimidar. Tenham a coragem de pensar.

Neste mês dei um curso de jornalismo de Moda no espaço Cult. Em apenas dois dias, é limitado o que podemos fazer em termos práticos. Mas fizemos bastante.

Os alunos, a maioria jovens, foram ótimos. Interessados, questionadores, esforçados, animados. Conversamos abertamente, trabalhamos juntos. No segundo dia, depois de uma aula introdutória de muita teoria, explicações detalhadas sobre as etapas da construção de um texto, e choques de realidade, eles escreveram juntos uma crítica de moda sobre o desfile da Chanel.

A primeira análise para boa parte deles, feita em grupo, após ver o desfile em vídeo, pesquisar referências via Google e discutir. É claro que a coisa toda puxa para o meu modo de ver as coisas, mas o que vale não é isso, e sim eles terem compreendido COMO chego a certas conclusões, os caminhos que percorro em termos de perguntas, pesquisas e conflitos. A partir daí, cada um poderá começar a trilhar seus caminhos. A velha história de ensinar a pescar.

É muito difícil fazer textos em grupo. Escrevendo direto no telão. Discutindo com os colegas as questões de conteúdo e de estilo. Em algumas horas, eles conseguiram fazer um trabalho muito digno. Melhor do que muita coisa que se pretende profissional.

São moços e moças que logo estarão ou que acabaram de entrar no mercado. Gente interessada em aprender os processos em vez de engolir pura e simplesmente as regras desse ou daquele veículo. É preciso trabalhar e no mundo capitalista não há como viver acima do mercado. As regras são sempre do dinheiro. Mas precisamos formar gente capaz de entender essas regras. É o primeiro passo para subvertê-las.

Aos meus alunos desta e de outras turmas, obrigada. Obrigada por me ouvirem, obrigada por serem jovens e quererem algo mais do que aquilo que é imposto como bom ou possível.

Vocês arrasam.

Amor,

VW

Abaixo, o texto editado por mim e assinado por:

Ana Cecília Macedo Coelho de Paula
Ana Paula Faria
Anita Fernandes Porfirio
Beatriz Rodrigues Skikora
Carolina Brandão Ionta
Debora Franco Machado
Giovanna Costa Gaba
Jaqueline Souza Carvalho
Maria Carvalho Costa Meneses Castro
Nina Bartlewski Simões
Rodrigo Avilla dos Santos
Stella Maris Chaves Resende
Tuani Beccari Ciciliati
Valentine C. Dassouki

 

Análise do Desfile Chanel Outono/Inverno 2013

Lagerfeld embarca em viagem mística na nova coleção da Chanel

O estilista Karl Lagerfeld surpreende com um desfile pouco convencional para a clássica e francesa Chanel. Cristais imponentes cravados na passarela anunciavam o tema da coleção outono/inverno 2013 da marca. O impacto ficou por conta de um certo exagero estético que foge do repertório habitual da grife.

Grande ícone do desfile, o cristal serviu de referência para a cartela de cores, texturas, formas e estampas. Tons de azul laminado, verde, prata e roxo apareceram em transparências e brilhos que remetiam ao efeito ótico das pedras.

Os acessórios mais marcantes foram os sapatos abotinados com saltos de acrílico e os braceletes e colares de metal, pesados e cravejados com pedras brutas. Também chamou atenção a aplicação de cristais nas sobrancelhas das modelos, feita pela Lesage, tradicional casa de bordados francesa.

Os recortes tridimensionais nas mangas dos casacos e as aplicações nas golas foram inspirados não só na forma do cristal, mas também nas linhas e ângulos do cubismo tcheco.

Das bases conceituais desse movimento, que acreditava na liberação de energia por meio da quebra de superfícies, Lagerfeld tira elementos místicos e exóticos, contrapondo-os à imagem clássica da marca.

De olho nos mercados em crescimento como a Índia, a marca explora a visão exótico-mística que o Ocidente tem sobre as culturas orientais.  Também recria as formas e silhuetas das vestimentas típicas indianas com sobreposições: o tailleur Chanel apareceu em versão Bollywood, combinado a calças cropped e vestidos com estrutura piramidal.

Numa temporada em que Paris recuperou o gosto pela fantasia, Lagerfeld deu um passo à frente na sua ousadia brincando com o exagero sem perder a essência Chanel. Afinal, por trás dos óculos escuros do estilista, existem olhos bem abertos_ para o mundo e para os negócios.

 


5 razões para ir ao cinema ver Pina em 3D
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Vivian Whiteman


Wim Wenders fez um documentário sobre a bailarina, coreógrafa e cabulosa da dança Pina Bausch.

E com a sensibilidade dela para o movimento dos corpos, digna de um astrofísico, sambou na cara da sociedade.

Saiba por que você deve comprar ingressos assim que possível e correr para ver essa maravilha:

1- Se você tiver alguma coisa que dança na cabeça e no coração vai sair de lá voando

2 –  O recurso do 3D nunca foi tão útil e justificado como nesse filme. A companhia de Pina está ali, o palco está ali. E a presença de Pina é tão forte nos bailarinos, especialmente quando ela não aparece, que só o 3D poderia, em termos físicos, dar conta disso. Wim Wenders fez Asas do Desejo, ele sabe que não dançamos sozinhos

3- Pina escreveu o amor com movimentos e tá tudo lá. Vou contar um: O homem faz círculo com os dois braços, feito cesto sem fundo. Uma mulher salta pra dentro, súbita e kamikaze feito um peixe. Não tem rede, mas ela se ajusta ao arco e para antes de a cabeça atingir o chão

4 – Os movimentos solo de cada bailarino são de chorar. Eles vieram de toda parte do mundo e não têm vergonha de mostrar esse sintoma de afeto, a coisa de ter vindo de uma terra. A moça brasileira gosta de pular cadeiras, ela é solta. Os movimentos conjuntos em grupo são um só corpo. Os duetos homem-mulher são uma cartilha

5 – O vestido vermelho. A pele de uma mulher, que se dá, que se joga que não quer se dar, que está derrubada e que se levanta. Na primeira montagem que aparece no filme, entre os vestidos cor de pele, uma mulher entrega ao Homem um vestido vermelho, depois de muita briga, luta e rejeição de ambas as partes. Ela veste. O vestido vermelho é o vestido da mulher amada, motivo de desejo, espanto e inveja entre as gentes

Eu ia falar do figurino,  mas, sabe… Vão ver. É tudo alinhado na mais pura imperfeição do perfeito.

Vá e aplauda.


Produzida pra guerra (Love is a Battlefield)
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Vivian Whiteman

O amor é um campo de batalha, já dizia o hit da filósofa rocker Patricia Mae Andrzejewski, mais conhecida como Pat Benatar, lá nos finados e sempre-vivos anos 80.

Em “De Repente, 30”, um dos melhores filmes que fazem uso da fórmula “menina-deseja-ser-adulta-e-popular-tem-seu-desejo-magicamente-realizado-instantaneamente-mas-percebe-que-o-buraco-é-mais-embaixo-e-volta-ao-passado-para-consertar-a-burrada”, a personagem de Jennifer Garner, em sua versão fake-crescida, canta “Love is a Battlefield” com uma porção de colegas pré-adolescentes.

De Repente, 30  (Clique para ver a cena)

Ela quer reconquistar seu melhor amigo de infância, que era gordinho mas virou um “gatinho” (nem curto o Mark Ruffalo, mas, enfim…) num futuro bizarro em que se tornou, com o perdão da vulgaridade, uma piranha grosseira, egoísta e mentirosa.  

Ah, é, no futuro bizarro a moça é a editora de uma revista de moda e comportamento… Valei-me, Senhor! Pai, afasta de mim a Diaba, pai!  E pode levar “as Prada tudo”, porque no final a realidade tá bem mais pra Zara mesmo (e uma Topshop, vai, de sobremesa). Suave.

Ontem, vi, “Parto of Me”, clipe novo da Kate Perry.

Nele, Kate pega o namorado com outra e, para esquecê-lo, decide ir para o campo de batalhas, literalmente.

Corta o cabelo, amassa os peitinhos com faixas, vira soldado em treinamento.

 

Tá, é ridículo. Mas é bem mais verdadeiro do que muita teoria furada sobre o amor. De Filosofia ruim, o inferno…

Um amor perdido demora pra sair do corpo. A presença do outro em você. Procure saber disso, a psicanálise (a verdadeira, tá, não CVV que cobra um malote por hora pra passar a mão na sua cabecinha e dizer que tudo o que você faz é lindo e que todo o resto está contra você) está aí, minha gente.

A separação de corpos requer medidas físicas. Já pensaram no número de mulheres que resolve tingir, cortar, tosar o cabelo depois do fim de um relacionamento importante? Pergunte aos cabeleireiros. Aliás, antes um belo corte de cabelo do que uma sessão truqueira de falsa psicanálise. Fica a dica.

Quantas mudam de estilo, queimam o guarda-roupas assim como Kate queima a cartinha do boy-decepção no clipe? Quem nunca engordou ou emagreceu, ou passou a malhar, fez uma tatuagem dramática, tingiu todas as roupas de preto e mudou o nome de Michele para, sei lá, Alabama Blues? Qual foi a medida não importa, a pergunta é quem nunca (precisou de um quase-novo duplo no espelho)? Bom, quem nunca mesmo, sorte sua, porque não é das coisas mais simpáticas. Mas sobrevive-se, filha, sobrevive-se.

É claro que não basta. Mas às vezes é preciso morrer no campo de batalha para poder levantar da pilha de corpos, de preferência, com qualquer coisa material que faça marca de Ano Novo, que diga ao velho amor, mesmo que ainda querido, mesmo que ainda presente, “hey, amigo, com licença, esse corpo precisa andar”.

Well, estou falando de encontros verdadeiros, não de qualquer Bozo ou Bozolina que passou pelo seu caminho enquanto piada do destino (desculpem, tenho horror a palhaço, trauma infantil, sabe como é). Pedra de tropeço é só chutar longe e seguir sem olhar pra trás, afe!

Sabe, o novo corte, o novo corpo não são falsos. Eles são um primeiro passo, ou talvez um sinal, de que você nasceu de novo ou está prestes a. Abrace.

Ai gente, sei lá, a Páscoa tá chegando e eu fico assim com espírito de ressurreição.

Quem nunca…


15 Toques de Clarice
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Vivian Whiteman

Talvez você não saiba, mas Clarice Lispector também foi jornalista. Ela trabalhou como colunista de moda, beleza e comportamento sob os pseudônimos  de Tereza Quadros (no jornal “Comício”) e Helen Palmer (“Correio da Manhã”) e como ghost writer da atriz e modelo Ilka Soares (“Diário da Noite”).

As crônicas e conselhos jornalísticos de Clarice podem hoje parecer ultrapassados e até machistas. Foram publicados entre os anos 50 e 60. Porém, com um olhar mais atento, os leitores vão descobrir mensagens e entrelinhas que mudam o sentido das receitas mais banais. Era Clarice, inscrevendo seu estilo e sua visão de mundo entre as grades de colunas femininas direcionadas a donas-de-casa e com a missão de serem mesmo meio caretas.

Clarice, depois de uma vida aparentemente perfeita de mulher de diplomata, se divorciou e teve de se virar para cuidar dos filhos e da casa sem contar apenas com a ajuda do marido. Era uma das poucas mulheres a trabalhar dentro de redações na época.

Uma seleção dessas colunas foi publicada nos últimos anos nos livros “Correio Feminino” e “Só Para Mulheres”, da editora Rocco. Recomendo para todos os fãs de Clarice e principalmente para moças e moços interessados em escrever sobre moda. Inspiração de estilo.

Aqui, reuni 15 das minhas passagens preferidas, que falam sobre moda e truques de beleza…ou não.

 

 

1  – “Tecnicamente, o preto é a inexistência” (sobre a volta do preto ao topo da moda)

2 – “Que lindas são as coisas antigas que se tornaram opacas e amarelecidas porque sobre elas passou a vida”

3 –  “Quando fazemos tudo para que nos amem…e não conseguimos, resta-nos um último recurso, não fazer mais nada” (na seção Aprendendo a Viver)

4 – “Mas o mesmo modelo, copiado para a vida diária, poderá perder a magia e tornar-se um trapo” (sobre copiar vestidos de filmes de cinema)

5 – “No inverno, a mulher é mais feminina”

6 – “Unhas com esmalte descascado, dando a penosa impressão de cicatrizes ainda não curadas” (sobre coisas que afastam os boy-magia)

7 – “E peruca? Pois usavam perucas negras para conseguir “o estilo sensual do Nilo” (sobre os truques de beleza das egípcias)

8 – “Não existe beleza em olhos adoentados”

9 – “O sinal de beleza era colado com amor perto dos lábios_ e então se chamava coquette” (sobre as modas pré-Revolução Francesa)

10 – “O sofrimento da jovem africana na ceva tem seu contraponto no da modelo, de quem se costuma exigir que seja “cabide humano” (sobre padrões de beleza, pra vocês saberem que vem de longe essa história…)

11 – “Algumas mulheres, felizmente poucas, relegam a faceirice a um plano secundário explicando esse desinteresse como “superioridade intelectual”. Nada mais falso” (sobre a faceirice feminina)

12 – “De um modo geral é melhor ter um perfume mais para seco do que para doce. A menos que seu tipo exija, pela sua doçura de índole e intenções, uma essência realmente doce” (sobre perfumes)

13 – “Apóie as palmas das mãos contra os olhos fechados. Imagine um monte de carvão. Então, imagine que um gato preto está subindo pelo monte de carvão” (exercício para atenuar rugas nas pálpebras)

14 – “Há mulheres de quem poderíamos dizer: não têm rosto. Na verdade, de tal modo a fisionomia está “submersa”, com traços indecisos e cores desbotadas, que lembra um quadro apenas esboçado e nunca terminado” (antes de uma dica sobre como usar maquiagem para reacender um rosto apagado)

15 – “Cerque sua presença de um halo de perfume e você estará se cercando de seu próprio mistério_você não estará mentindo, estará dizendo a verdade de um modo bonito”

 


Roupa de parque ou Saudades do Playcenter
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Vivian Whiteman

Drama! O Playcenter vai fechar e se transformar num daqueles parquinhos infantis cheios de patrocinadores, que ensinam as criancinhas a gostarem bastante de certos personagens da TV, sempre de forma super educativa, claro.

É uma pena porque o Playcenter era um dos poucos lugares em que os pré-adolescentes e teens sem muita grana e cansados dos shoppings podiam circular mais avonts. Bastava o passaporte, lanche na mochila e um troco pra água e um refri de repente, e tava tudo certo pra um dia inteiro.

 Muita gente da minha geração, que hoje está na faixa dos 30, guarda boas lembranças de lá. Nos anos 90, excursão ao Playcenter era programa incrível. A gente se montava de forma especial, porque às vezes não era obrigatório usar o uniforme da escola.

Nada a ver com essa ideia parque vintage, com mocinhas de vestido retrô etc Isso é coisa de publicidade.

A peça oficial era o moletom. Mesmo que estivesse calor. Aí o moletom ia na cintura, tirando uma onda e tal. Pakalolo, camiseta Big Johnson, blusão Hard Rock Café, várias modinhas faziam sucesso no parque. As filas eram imensas, e o dia durava, de forma que todo mundo ia de tênis. Aliás, todo mundo só usava tênis. Meu primeiro Nike eu usei até acabar. E minha mãe depois mandou trocar a sola. Economia doméstica é isso aí. 

 Quando fazia frio os boys botavam moletom ou jaco de capuz. “Roubar” a bombeta do boy pra usar durante o passeio era sinal de xaveco. Jogar a bombeta do colega de cima do brinquedo em movimento era sacanagem, mas rolava.

 Vocês se lembram da visita bafo-surpresa de Michael Jackson ao Playcenter? A gente, na época, só viu uma foto no jornal. Na foto, alguns convidados sortudos e duas tendências da época que voltaram e estão na “última moda” agorinha: regatinha branca com saia ou short listrado e calça de sarja com camiseta em tons pastel.

 Mas, tipassim, regata branca só usavam as moças que:

1 -Não planejavam visitar o brinquedo Splash, do qual todos saíam ensopados de água de qualidade muito suspeita

2 – Queriam experimentar o efeitinho “gata molhada”, fingindo acidente

 Mas mesmo as do segundo grupo faziam a linha e botavam os bracinhos na frente pra disfarçar, o que obviamente só piorava as coisas_ ou melhorava, se você fosse um dos boys que estavam olhando…

 Ironicamente, nesse caso, a camiseta do uniforme era a coisa mais abusada que alguém podia usar. Gatitas uniformizadas iam ao brinquedo e saíam transparentonas. E ninguém diria que estavam fazendo de propósito porque, afinal, estavam de uniforme…

 Os adolescentes brisavam pelas ruas do Playcenter, começavam e terminavam namoricos, tomavam refrigerante, tiravam fotos de turma, discutiam crises em filas de duas horas para entrar na montanha russa.

As minas mais afortunadas curtiam ir com peças compradas na Disney, assim, para dar um clima. As demais lançavam um Mickeyzão genérico e tava tudo certo.

 Nunca me esqueço de um menino que foi com calça de pijama. Naquele dia, cerca de 10 meninas de uma turma de 30 ficaram apaixonadas por ele. As outras 5 ou 6 achavam muito maloqueiro. Nesta idade, a revolta fashion compensa.

Acessórios não eram aconselhados. Uma vez, na cabana da Monga, onde uma mulher virava macaco, houve uma confusão e roubaram o relógio da minha professora na bagunça. Fica a dica, que vale pra qualquer aglomeração.

Os menores se divertiam no show dos ursos e na montanha encantada, sedentos pelo dia em que poderiam entrar na cabine da Enterprise ou na Casa dos Monstros.

 

Mais recentemente, góticos e mauricinhos foram às Noites do Terror (uma vez,  peguei ônibus com uma senhora que vestia uma túnica preta bizarra. Não aguentei e perguntei se ela era algum tipo religioso, mas a tia trabalhava de monstro do Playcenter. Fizemos amizade, e ela contou que já ia vestida e deixava pra fazer o make lá. Era megadifícil de sair, make tipo vagabundão), indies relembraram o passado brincando enquanto ouviam shows de rock.

 Aliás, um parque estilo Zumbilândia é a cara de São Paulo. Certos funcionários nem precisariam de maquiagem…

O parque teve mil problemas, de acidentes a arrastões, precisava mesmo de uma boa reforma,  mas esse não é o ponto.  O caso é sintomático e esse desfecho vem de uma decadência maior que a do Playcenter em si.

A transformação do Playcenter em mais um local de divertimento “higienizado” tem a ver com a fase terrível da cidade de São Paulo. Cada vez mais careta, cada vez mais medrosa, cada vez mal administrada, cada vez mais restritiva, mais autoritária e mais proibida pra seus próprios moradores.

E São Paulo, vocês sabem, é a cara do mundo de verdade, do mundo do grande capital, esse que para sobreviver precisa cada vez mais esfaquear a democracia, porque se tornou incompatível com ela.

 Adeus gatas ensopadas, xaveco de shortinho e moletom, barraco na lanchonete, gritaria no escuro, galera de escola pública encontrando as particulares, tchau romance interescolar.

Adeus professores fazendo vistas grossas _ porque meninas e meninos precisam estar às vezes longe dos pais, mas perto de alguma figura de confiança, para aprenderem a gostar um dos outros. Isso também é educação.

Com a massa escolar falida e as opções de diversão sendo aniquiladas uma a uma, fica muito difícil ser um jovem não-rico nessa SP infernal.

Valeu, capital do chuchu, por tornar mais chata a vida já complicada da galera que vive de carteira meio murcha nesta cidade cabulosa.

De repentemente, vem à cabeça uma letra do Criolo, perfeita para esse “passeio”:

 “rocambole sem recheio, tonel sem cachaça, beijo sem língua, São Paulo é uma farsa …”

 

Tags : #playcenter


Manual afetivo (e nada prático) para separar roupas
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Vivian Whiteman

 

1 – Tire tudo dos armários e jogue em cima da cama. Absolutamente tudo, nem a mais imaculada calcinha deve ser inocentada

 2 – Tire também todos os sapatos. Jogue todos eles no chão, em volta da cama. Não tenha muitos sapatos demais da conta. Imelda datou. Fique com os lindos, inclusive alguns que apertam (mas esses têm de ser MUITO LINDOS, feitos quase que só pra olhar). E com os que te ajudam todo dia. Cuide com sua própria vida daquele que além de bonito de se ver abraça seu pé sem machucar. Niguém precisa de mais um sapatuxo meia-sola. É permitido manter um tênis bem véio no fundo do armário. Ele vale por um mapa das calçadas e das pedras…

 

3 – Separe espaço para duas pilhas. A pilha do sim e a pilha do não. Não existe talvez nesse manual, é preciso ter fé minha gente. As roupas vão e, se pá, voltam.

 4 – As coisas que ficaram pequenas vão para o não. Mesmo que você emagreça no futuro, nunca mais será daquele tamanho, se é que vocês me entendem. E tem um truque aí. Se elas tiverem sido um dia perfeitas de verdade, você vai reencontrá-las em outras versões, outros verões e invernos adiante. E quando rolar o reencontro, você saberá. Graças aos céus, a moda não é linha reta.

 5 – As coisas muito grandes também vão para o não. Em último caso, se existir algo muito especial, você pode reformá-la para o seu presente.

 6 – Guarde algumas coisas inúteis. Mas só as que forem inutilmente essenciais. Tipo as que te fazem lembrar de quem você um dia quis ser, mas tanto não era que não teve coragem de usar a fantasia. Num domingo inútil, porém, talvez você acorde e perceba que a fantasia descartada veste exatamente o que você é mas não quer alardear. Complicou? Tudo bem.

 

 

7 – Separe por lembrança. Essa é a parte complexa. Exemplo 1: Roupa linda do primeiro encontro maravilhoso com o ex. Pilha do sim, se você já tiver superado. Pilha do não, se você ainda precisar de mais tempo com o corpo da lembrança.  Exemplo 2: Roupa que você passou pela via Crúcis : pilha do não! Manter santo Sudário não dá sorte, minha gente, hello!! Exemplo 3: Roupa com mais de 10 anos que ainda te serve. Pilha do sim se você sentir um toque de magia, tipo o filme das amigas com o jeans viajante. Pilha do não se fizer você parecer um manequim do passado. Eu avisei que não era prático. Mas vocês verão os resultados.

 8 – Faça o que quiser com seu vestido de casamento, eu que não meto a minha colher nesse assunto. Mas o meu eu usaria em casa, pra lavar louça com alegria, ver filme no sofá, sei lá. Fotografe e brilhe muito no Instagram.

 

9 – Separe coisas específicas para dar para familiares e amigas. Pense sobre as escolhas.

 10 – Doe roupas em vez de sempre tentar conseguir um din com elas (a não ser que você esteja precisando, aí vá fundo e valorize a mercadoria, tio!). Veja a sua pilha do não, gigante, e doe feliz da vida. Não doe lixo, isso é coisa de gente mesquinha. Lixo é lixo. Doe o que é bom e que no momento você não pode usar por algum motivo. Catou?

 

Faz favor de vestir o que ficou. E fique atento para não ir atrás de novas aquisições só pra preencher o vazio do armário. Ande leve e soltim, desencane um pouco de vitrine, curta o que você tem de seu e foque nas necessidades. No momento certo, um “new look” (pode ser uma inovação total ou uma releitura sublime) vai bater de frente e te fazer fechar e abrir os olhos em menos de um segundo. Não aguarde, mas saiba reconhecer os sinais. 

 


Uma impressão em vermelho
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Vivian Whiteman

 

Eu uma vez entrei no metrô, direção rodoviária do Tietê e vi dois homens com duas camisas iguais.

Um deles era adulto e ali naquela dupla certamente ocupava o papel de pai. O outro, ainda menino, era filho.

Eles usavam calças de brim azuis daquelas rústicas, endurecidas e com costuras bem fortes pra dar conta de segurar o tranco do tecido.

Tinham cintos com fivelas grandes mas simples, como deve ser o cinto em sua origem funcional. Estavam cintados.

Estavam de mãos vazias, mas imaginei que carregassem, os dois, violas. Do mesmo tamanho, o que daria ao menor um aspecto meio patético, esperançoso, de quem ainda não cresceu até a altura do instrumento mas faz o que pode até lá.

Mas o que me impressionou foram as camisas. Algodão sem frescura, pano de vestir. Golas firmes, talvez engomadas na fervura da panela; certo é que davam aos dois um ar muito grave.

É de arrepiar os ânimos da São Paulo dos farsantes: camisas vermelhas. Vermelhíssimas de um sangue que não se usa mais ter. Só quem é, os demais não se arriscam tanto.

Entre os passageiros havia estampas, havia cores velhas, trabalhadores de tênis e falsos cristais de moças que sonham com estrelas, mas o mundo de gente orbitava em torno dos camisa-vermelha.

O pai com rosto de moreno de roça, sulcado e muito sério, o menino resignado, já meio adulto. Estrangeiros.

Desceram no Tietê, assim como eu. Talvez fossem tocar em algum lugar. Talvez já tivessem tocado. O violeiro em São Paulo será sempre um pouco triste. Talvez triste seja eu que só consigo pensar em violeiros de camisa vemelha. Me perdoem, mas aquelas, daquele talhe, só mesmo quem tem a coragem de lamentar na viola.

No corredor de saída, andaram lado a lado, sem trocar palavra. No meio da multidão, eram pastores boiadeiros.

Os homens alcançaram o espaço, os confins, as entranhas e até tiveram coragem de usar pink, a cor que de tão alegre ficava proibida.

Mas é preciso mais pra explicar a verdade daquelas camisas vermelhas. Se fossem um bilhete de despedida, diriam assim; “não foi, não terá sido em vão”.


A Moda e Mercúrio Retrógrado – Como lidar?
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Vivian Whiteman

Mude a data de estreia do blog, me disse um amigo, muito preocupado. “É Mercúrio retrógrado!”. Felizmente, eu já havia consultado minha Susan Miller do mês e estava sossegada.

Aliás, Susan, essa assombração em forma de astróloga, amada pelos fashionistas, é a culpada pelo hype errado de Mercúrio e seu movimento retrô. Antes dela, os dias eram mais simples, as pessoas ignoravam esse planeta e viviam suas vidas terrenas. Hoje em dia, estilista se recusa a marcar desfile em discordância com esse planeta.

Mas Susan liberou: ao que parece, esse mês será ótimo para projetos profissionais leoninos. “Desde que planejados com antecedência”, disse a ditadora. Bom, era meu caso.

Esse blog que começa hoje é uma ideia que vem sendo alimentada há algum tempo. A ideia de ter um espaço em que as tendências e as notícias de moda sejam vistas menos como mandamentos de uma indústria milionária e mais como crônicas da vida moderna. Em seu viés mais interessante, é exatamente isso que elas são.

Para a estreia, sob a sombra de Mercúrio, inventei algumas historinhas sobre catástrofes fashion para cada um dos signos. Na verdade, todos menos um, e vocês me darão razão (ou não!!!) nessa escolha.

As histórias misturam as tendências do momento, características muito genéricas tiradas de horóscopos fashion_ sim, eles existem!!_ e um tanto de imaginação. Tudo temperado com as grandes tretas de Mercúrio retrógrado: erros de comunicação, acidentes, problemas com máquinas e objetos e contratempos surreais. Por isso, as historinhas têm o título: O que pode dar errado? Reparem que os pronomes ‘ela’ e ‘você’ se misturam nos contitos. Porque no horóscopo, assim como nas tendências de moda, a gente sempre lê o genérico (a aquariana, a sagitariana, a romântica, a minimalista, a esportiva etc) pensando no pessoal.

Um jeito bem-humorado, sem nenhuma pretensão astrológica real, para começarmos com o pé direito e numa boa.

Procure o seu signo e bem-vindo a esse blog. Volte sempre, e que os astros fashion nos protejam!!!

É nóis

Bjs, VW

PS: Esse post foi ilustrado com fotos da cantora Nicki Minaj. Pra ela, em termos de moda, Mercúrio está sempre retrógrado. Só pode ser isso, gente, é muito erro. Você pode usar como gíria. Ex: Minaj é super MR (mercúrio retrógrado).

 

Minaj, a MR

 

Áries A ariana tem um “quê” minimalista de certa forma, gosta dos clássicos revisitados. Inova nos detalhes e curte toques masculinos no seu guarda-roupa. Curte cores sólidas e não é muito fã do efeito Carnaval.

O que pode dar errado?

Bem, é verão aqui no Senegal, as vitrines estão cheias de roupas de cores neon e corte minimal. Você pensa, bem, vou investir. Como não é aparecida, você compra uma camiseta box (quadradona e durinha) fluo que viu na última “Vogue” e bota um blazer neutro por cima. Porém, na reunião de trabalho, o equipamento hi-tech da apresentação no telão que seu chefe decidiu fazer joga uma luz exótica sobre seu peito, que brilha feito um carro alegórico. Todos olham. Quando você sai, chove e a blusa solta tinta manchando seu blazer preferido. Ele era claro, caro e pago no cartão. Seu chefe, um cafona de gravata estilo Didi dos Trapalhões, insinua que você não sabe se vestir adequadamente e distrai seus colegas. O moço do estacionamento pergunta se tá faltando luz na sua casa e gargalha. Chegando em casa, pensando nas prestações do blazer, seu filho pequeno grita: Lady Gaga! E sai correndo e chorando pela sala. O canal de moda diz que neon envelhece depois dos 18. Sua filha de 13 anos entra com uma blusa idêntica.

 

Touro A taurina tem fama de sensual. Daí que ela curte tecidos que brincam com a pele, adora uma textura. Gosta de se sentir confortável e abraçada pelas roupas que veste. Fica bem com tons terrosos, uma coisa raízes.

O que pode dar errado?

As texturas estão com tudo. As fashionistas declararam. É tempo de misturar tecidos diferentes, a taurina comemora e vai às compras. Ela monta um look incrível, com três texturas diferentes, uma maravilha de se ver. Pra melhorar, os forros são todos maravilhosos, acetinados. Ela tem um encontro com um boy magia e se joga no modelo novo. No balanço das horas, ela e seu boy se pegam e se esfregam no cinema. De repente ele para, nervoso. No calor do momento eles não perceberam que os tecidos texturizados promoveram um efeito peeling no boy. Ele agora está em carne viva, e eles vão para o hospital. A enfermeira é do PETA e ameaça queimar sua bolsa Gucci, feita de python. O boy diz que você deveria usar coisas mais normais e que, inclusive, ele curte um cross-dressing e poderia bem ficar com o seu top luxuoso. A enfermeira destrói a bolsa com bisturi. O boy não tem dinheiro e seu cartão de crédito estava na Gucci. Você larga o boy-Mercúrio e vai dar queixa da enfermeira. Na delegacia houve apreensão de animais silvestres e você é mordida por uma cobra. O soro antiofídico dá reação e deixa sua pele texturizada.

 

Gêmeos  A geminiana não se contenta com um estilo, curte o mix. É ousadinha, consegue reconhecer as inovações da moda e fazer bom uso delas sem entrar pra grupo. Fica ótima de amarelos, laranja e branco.

O que pode dar errado?

A moda é over, e mix de estilos é quase uma ordem da temporada. A geminiana compra maxicolares meio árabe-street, um vestido com detalhes vazados e um salto bem alto, estilo Carrie Bradshaw em dia de babado. E vai para uma festa, linda, translumbrante. Ela chega e vai cumprimentar a anfitriã, mas os colares ficam presos nos cabelos da amiga. A pobre geminiana tenta arrancar a todo custo e puxa com tanta força que acaba arrebentando tudo. A amiga grita de dor. Alguns pedaços entram no vazado do vestido e escorregam pra dentro da calcinha, outros caem no chão.  Ela tenta abaixar pra recolher e acaba caindo. Com o esforço, o salto quebra e o vazado vira rasgado. A festa estava uma porcaria e ninguém tinha mais o que fazer, de modo que todos estavam olhando. Sua pior inimiga entra com um look dez vezes mais bafo que o seu e um bofe-sonho, bem quando você tenta levantar, revelando uma bunda rasgada com cinta modeladora. Do outro lado do salão, seu celular de última geração que custou dois rins voou da bolsa durante a queda e se espatifou. Quando você chega em casa tem 38 recados da sua mãe na secretária dizendo que você não atende celular. Você vai ler emails e descobre que o vídeo de sua desgraça está no YouTube porque alguém filmou com celular de alta definição. Sua irmã te indicou por email para o Vigilantes do Peso.

 

Minaj, sempre MR

 

Câncer A canceriana gosta de segurança ao se vestir. Isso pode significar um look bem simples ou a maior montação do milênio. Dependendo do ambiente, afinal, a segurança fashion muda drasticamente de significado. Suas cores principais são preto, verde, cinza e branco.

O que pode dar errado?

A canceriana viu os looks lindos em p&b da última temporada de desfiles. Adorou o mix de estampas meio geométricas meio art déco. Ela aproveita para ir a um evento de moda megaconcorrido com transmissão ao vivo e arrasa nas linhas verticais e horizontais e formas triangulares, tudo para se encaixar mais do que perfeirtamente ao ambiente. Ela se destaca e, obviamente, é chamada pra dar entrevista. O jogo maluco preto e branco gera um efeito ótico e vários espectadores começam a desmaiar. Os telefones da emissora bombam, e ela precisa ser empurrada às pressas da frente das câmeras, caindo em cima de um ex-namorado que estava na plateia com sua nova esposa. Ela chora tanto que o rímel escorre e borra a parte branca do vestido. E esfrega tanto tentando limpar que rasga o tecido fino. A mulher escrotinha do ex-boy comenta com a vizinha: eu te disse que ela era uma perua descontrolada, diz que toma coquetel de remédio. A cena do empurrão, com a roupa coberta por um quadradão preto, daqueles de censura, que te faz parecer um caixote penteado, passa na TV.  Sua mãe liga e diz que você não vai casar se continuar sendo tão engraçada. Você chora e desenvolve uma inflamação no canal lacrimal.

 

Leão A leonina é drama, adora drama, se veste de drama. Qual é esse drama fica muito no que vai da cabecinha dela, sempre cheia de ideias. Eu, como leonina, sei bem. Adora um dourado, Jesus, como gosta de brilho.

O que pode dar errado?

Desculpem, mas não posso narrar minha própria tragédia neste momento. Hello, é mercúrio retrógrado, eu, hein, minha gente! Pensem nos riscos! Quando passar prometo que publico.

 

Virgem Ela é chique, ela é discreta, ela é uma moça sempre be vestida sem grandes esforços. Ela curte tons neutros, belos tons de marrom e azul, mas ama mesmo preto e branco.

O que pode dar errado?

A virginiana pira numa roupa branquinha, limpinha. E branco é puro frescor, está em alta nas alas mais casuais das lojas. Essa lady do zodíaco pega sua família e corre para um almoço delícia ao ar livre. O garçon derruba vinho branco no vestido. Tudo bem, ela sabe tirar. Sem querer, ela encosta na pia do banheiro e só percebe q tem uma mancha vermelha no baixo-ventre quando seu namorado pergunta se houve algum acidente. Era batom, mas não parece… Ela volta para limpar, mas dessa vez o tecido fica transparente, assim como sua calcinha branca, que era pra não marcar o vestido. Ela senta correndo e bota o guardanapo, esperando que seque. Uma amiga chega com o filho no colo, e ela sem graça, levanta. Conversam, ela com as mãos na frente. O menino passa a mão pelo molho de tomate e num ímpeto,  faz uma marca vermelha no peito da pobre. A mãe desolada vai tentar limpar com água, mas acaba espirrando demais. Você vai embora parecendo uma hemorragia ambulante. Acabou a cândida em casa e é domingo de feriado. Sua mãe liga e diz que você não devia mesmo usar branco porque engorda  e suja demais. O marido, entretido com a TV, demora a eternidade de dois segundos para responder se a roupa te deixou gorda. A apresentadora diz que vampiro do bem tá na moda. Seu nariz sangra.

 

Libra Dizem que a libriana é a mais chique do zodíaco. Sofisticada demais, sempre além e acima da tendência. Adora tons pastel, tipo a cartela de neutros, e pode pensar em usar o estilo cores de cupcake que está rolando forte agora.

O que pode dar errado?

A libriana fina está toda de Louis Vuitton, comprou várias peças da coleção “docinho de Maria Antonieta”. Ela não costuma usar tendência, mas abusou logo no Mercúrio retrô. Saiu de casa de rosa, amarelo e azul, tudo lavadinho-bebê. O porteiro perguntou se era uniforme de babá. No escritório, a recepcionista comentou pelas costas: acha que é mocinha agora. A colega de trabalho lançou, nossa, Vuitton, ganhou aumento? O chefe com topete tingido de Silvio Santos arrastou: querida, sei que você trabalha muito, mas não podemos descuidar do visual, você tá tão abatida que se reflete nas roupas… Vida, queremos vida nesta empresa! A secretária contou: o pessoal do jurídico tá rindo no bebedouro e dizendo que você deveria ser demitida por justa causa de tão feia que é essa cor de roupa. A faxineira zoou: senhora exagerou na cândida, hein? Só por Deus! O moço obeso e tarado da xerox dá o fatality: olha o meu lanche de hoje, e mostra um donut com cobertura que parece ter sido inspirado no seu look. Você bota um pretinho, passa na lavanderia e manda tingir tudo de azul-marinho, como aconselha a musa fashion francesa Ines de La Fressange. A atendente resmunga: essa gente cafona tem dinheiro e não consegue usar uma moda assim atual. Sua boca treme.

 

Escorpião Com a escorpiana o movimento é sexy, minha gente. Roupas que caminhem junto com as curvas estão sempre no jogo. Curtem coisas únicas, exibidas, exóticas. As cores também são ousadas, como roxo, vermelhos, azuis profundos e prata.

O que pode dar errado?

A escorpiana  resolveu se ligar na onda exótico-animal que tá rolando nas araras. Comprou pencas de brincos e outras peças de penas, um dos últimos gritos da moda em acessórios. Botou dois brincos gigantes, uma pulseira maravilhosa e foi encontrar uns amigos. Tudo de plumas verdadeiras. No caminho percebe uns gatos de rua. Eles se aproximam. Ela começa a correr, os gatos ficam um pouco agressivos, assustando os pombos, que armam uma revoada. Ela entra no shopping e respira. Na lojinha de animais, os passarinhos se agitam e começam a piar todos juntos. Alfred Hitchcock aparece num filme na loja de TVs. Com vergonha e medo, ela foge e vai tomar um café. A atendente diz: bonito seu brinco, sabe, eu tive um papagaio… Pensando em jogar tudo fora, a escorpiana dá de cara com uma vitrine cheia de brincos parecidos. Resolve entrar e pergunta para a vendedora se essa linha de produtos tão bacanas está saindo bem. A vendedora responde: ah, pessoas diferenciadas, tipo assim a senhora, gostam. E dá um risinho. Ela sai bufando. Pega um táxi, os amigos estão esperando e o restaurante é ali perto, mas melhor não arriscar com os gatos. Quando ela chega, um amigo diz: ah, atrasou assim porque tava na micareta né? Não aguenta ficar um mês sem Carnaval. O prato do dia é galinha ao molho pardo. Começa a tocar “Condor”, do Oswaldo Montenegro.

 

Sagitário Informal, eclética, esportiva, a sagitariana curte inventar e surpreender. Curte pink, laranja, marrom, amarelo e adora pedrarias em tons quentes.

O que pode dar errado?

O esportivo misturado com peças luxuosas é tendência forte. Aí a sagitariana viu na revista mais cool do momento um look todo rico com tênis bem esportivo. Era uma vitrine da Chanel, que agora está fazendo tênis desse tipo. Ela se monta assim: saia e blusa com aplicações de pedra e um tênis estilo cantora M.I.A.  Lindona, se joga numa boate e dança pra valer, afinal, que maravilha dançar sem salto. Porém, o tênis altamente tecnológico tem umas molas que saem de esquadro. Ela começa a pular feito um boneco de posto descontrolado e derruba pessoas na pista. Tenta se apoiar num sujeito com blusa de telinha e as pedras ficam presas. O sujeito acha que é truque e grita: querida, me perdoa, mas eu sou gay. Ela tenta se soltar e se segura no cara do lado, que diz: eu não sou, e comeria todas essas balas que estão grudadas na sua roupa. Enojada, ela dá um salto e atinge a rota de saída. As pessoas começam a imitar, achando que é um novo passo de dança. Ela paga a conta se segurando no balcão e sai. Do lado de fora, encontra o namorado, que estranha ela não parar de se mexer e diz: poxa, amor, você deveria ter contado sobre esse problema com drogas. Na rua, um grupo de moleques de 14 anos passa usando tênis iguais aos dela e grita: aê, tia, firmezona, zica do baile, hein? Ela tira os tênis e entra descalça no táxi. O carro quebra e chove granizo. Seu pé forma bolhas.

 

Minaj, a MR

Afe!!!!

 

Capricórnio Ela é glamourosa, mas não precisa se encher de brilhos pra isso. Sabe ser ousada e adora coisas vintage. Fica bem em preto, cáqui, violeta, azul e verde-militar.

O que pode dar errado?

A capricorniana se liga em Nova York, a terra do hype, e catou de lá uma tendência meio militar e casou com o vintage tribal que tá nas lojas. Arrancou as mangas de um jaco de exército e fez um colete. Por baixo botou um vestidinho meio de índio americano e uns acessórios de miçangas comprados na Urban Outfitters. Foi ver uma exposição na Paulista mas acabou no meio de uma manifestação suspeita. Pelos povos indígenas do recanto Lindo Índio Meu Amigo. Começa a ser hostilizada por um grupo que achou que ela estivesse com roupa de matador de índio, ainda mais com distintivo do exército americano. Sai correndo. Mais pra frente, ela é confundida com um índio, e acaba com um megafone na mão. O bagulho falha e só volta a funcionar bem na hora em que ela dizia: “eu não tô participando dessa porcaria de marcha seu bando de…” Correu, correu muito até entrar no museu. Chegando lá, a antropóloga que ia dar a palestra de abertura da expo comenta que aquele tipo de revisão pop da vestimenta indígena era uma afronta por parte do colonizador e que… Nervosa, a capricorniana dá um empurrão de nada na antropóloga, que urra feito um lobo do deserto americano. Ela é expulsa e sai pelos fundos, sob ameaça de processo. Do lado de fora, índios bolivianos tocam “I will always Love You” em versão flauta. Você compra o CD.

 

Aquário Aquariana, boneca Criativinha do Gugu, cheia de ideias, cheia de novidades, fashion-espiritual. Fica bem com cores menos óbvias como violeta, tons de neon e azuis platinados. Adora uma estamparia bem malucona.

O que pode dar errado?

Estamparia descontrol é com a aquariana mesmo. É a hora de comprar aquele floral com flamingo com bicho com diumtudo, e juntar no corpitcho. Ela sai totalmente demais e vai pra um lançamento de livro numa livraria cool. De repente, algumas pessoas fazem sinal de reverência e começam a cantar coisas estranhas. Ela disfarça e vai para a seção Esotérica, que estranhamente está vazia. Alguém comenta: viu, Nádia, eu falo pra você que a gente tem de se iluminar, olha lá os livros que ela tá olhando, e você comprando essas porcarias que vêm com forminha de cupcake. A aquariana desce as escadas e cumprimenta a conhecida que está lançando o livro “Eu, Himalaia – Uma transa com Andy Warhol”. Três gatos pingados e vinho quente. O mezzanino, porém, está lotado. Curiosa ela vai até lá e percebe que todos abrem caminho. Uma moça de pé feio e sandália mais feia ainda se aproxima: xamã Vento Lancinante, bem-vinda, e sorri muito. Você desfaz o mal-entendido e o sorriso desaparece. Nádia comenta: tá vendo, Zélia, vem com roupa exótica pra aparecer mais do que a convidada. Eu faço cupcake mas tenho assim uma humildade, sabe? A amiga Himalaia canta Lou Reed em versão mantra.

 

Minaj, a MR

 

Peixes A pisciana tem alma e roupa de quem imagina longe, tem estilo que reflete suas inclinações espirituais e sonhadoras. Ficam bem com todos os tons e combinações possíveis de azul.

O que pode dar errado?

Tudo azul pisciana, tá lá a coleção nova da Stella McCartney pra provar o tom da tendência. A peixinha do zodíaco sai de casa na onda total blue e senta num café para escrever alguns sonhos muito complexos e recorrentes. O moço da mesa ao lado manda um drink pra ela: com curaçao blue, para o seu coração azul. Ela acha cafona, mas agradece com um aceno amigável e resolve beber. A coisa começa a fazer efeito e a escrita vai melhorando, ficando mais solta. Ela pede outro. E mais um. O moço se aproxima, cheio de coragem. Ela passa mal e vomita azulão em cima da camisa branquinha dele. Ela levanta e sai sem pagar a conta, envergonhada. Cambaleia e diz uma frase do sonho: o azul do céu é meu anel. Tem um flashback de quando ainda criança teve overdose de picolés de groselha azul. Diz: não, mamãe, blues, senhor, piedade! Acaba na porta de  cinema de arte da Augusta e pira na capinha do “Veludo Azul” vendido no camelô. Vê uma foto da Katy Perry de cabelo azul e diz: alucinante. Uma amiga a reconhece e te leva embora pra casa. No sofá, você dorme e viaja em ondas de diamante azul-piscina com o Ice Blue do Racionais. Você vai ao banheiro lavar o rosto. No armário tem um frasco de Viagra com o nome do seu avô.

 


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