Blog da Vivian Whiteman

A B…É MINHA! (É MESMO?)
Comentários Comente

Vivian Whiteman

Voz de um tipo de feminismo no qual eu acredito, a funkeira Deise Tigrona tem uma música chamada “A Buceta é Minha''. Me desculpe você que fica indignado de ler isso assim com todas as letras, talvez você devesse se indignar com outras coisas, mas enfim, desculpe aí.

O funk fala sobre o direito de transar conforme seu próprio juízo sem ser tratada como vadia. Mas a frase bem que poderia ser objeto de análise mais ampla, estendida a mais assuntos na vida de cada mulher.

As personagens de uma interessante reportagem sobre o crescimento da cirurgia íntima, publicada pela Folha de S. Paulo, poderiam gritar esse bordão para se defender.  As moças mudaram seus pequenos lábios, há quem remodele o clitóris. Foram muito criticadas por toda parte, como se fossem a voz de um comportamento muito novo e chocante. Poderiam argumentar, como Deize, “é minha, é minha, é minha''.

Pessoalmente,  o mais breve pensamento sobre mexer assim em território tão sensível e estratégico, sem que seja por absoluta necessidade médica, me dá arrepios. Piercings vaginais, doloridos que são conforme as corajosas que os usam (elas dizem que, depois de cicatrizados, são fontes de grande prazer, mas prefiro morrer sem essa alegria), me dão arrepios.  Tatuagens íntimas… Enfim, vocês entenderam.

Mas não há como negar que as plásticas íntimas fazem todo sentido no mundo neste momento, são parte de um sistema de valores e ideias decadente. E é hipocrisia fingir que não, que não tínhamos nos dado conta do atual estado da economia estético-libidinal da coisa toda.

 

 

Vejamos mais de perto:

Segundo os especialistas dizem no texto, a ideia é alcançar uma vagina estilo virgenzinha. Um estereótipo de virgem, é claro.  Virgens são mulheres e, portanto, são muito diferentes entre si. Tivessem prestado atenção na letra de “Like a Virgin'', da Madonna, não estavam seguindo essas ideias de tropeço, mas enfim, continuemos…

Virgens brancas rosáceas com pêlos macios, o sonho da “vagina inofensiva''.

E onde é que essas mulheres aprenderam isso? Onde é que foram exibidas essas imagens de certo e errado vaginal?

Há possibilidades  logicamente viáveis. Revistas masculinas “fotoshopadas''. Soft porn bem produzidinho, com altos truques de iluminação. Nus artísticos em revistas de moda hype.

Porém, tenho um outro palpite interessante, que ajuda a completar o quadro. O corpo da moda, aquele vendido pelas maiores revistas, grifes e estrelas do mundo é todo ele infantilizado.  Ou seja, se é para ter peitos, coxas, barriga e pele de uma mocinha de 12 ou 13 anos, por que tanto assombro quando as moças resolvem completar o pacote com uma “vagina zero quilômetro''? Não parece lógico dentro das regras do jogo?

Outra questão.

As moças estão fazendo essa cirurgia mesmo sabendo dos riscos de perder a sensibilidade local. No entanto, sobram relatos em diversas reportagens, entrevistas e vídeos sobre o assunto, nos quais mulheres que se submeteram à cirurgia dizem que o fizeram porque ficavam constrangidas diante dos namorados e maridos.

Ao que parece,  apresentar uma vagina “alternativa'' ao padrão que elas acreditam existir estava estragando tudo na cama. Tanto, que seria melhor arriscar a sensibilidade física. Obviamente, mesmo depois da cirurgia, muitas não resolveram esses problemas. Outras, disseram que sim.

Se tantas moças e mulheres relatam sofrimento e depressão ao terem seus corpos analisados e rejeitados pelo olhar masculino (mesmo que muitas vezes os parceiros jurem que estão, e de fato estejam, felizes com o que estão vendo), porque isso ficaria restrito a um peitinho empinado ou a uma barriga chapada? Por que esse mal estar seria menor ao chegar no que, por estar sempre escondido, tem mais impacto de revelação?

E tem mais: a vagina pasteurizada ganha novo status: ela pode ser “potencialmente'' exibida.  Vamos propor uma propaganda falsa, maluca, apenas sigam o pensamento: “Amiga consumidora, imagine se suas fotos explícitas caem nas redes sociais? Sonha em ser fotografada saindo do carro sem calcinha como a Lindsay Lohan? Você está segura com o shape e a cor da sua região íntima? Não? Nós resolvemos para você!''. Entenderam?

 

 

Vejam que cenário detestável: no mundo pós-moderno contemporâneo, o ideal de muita gente é fazer sexo imitando cenas, gestos e mecanicismos de filmes pornô (e a que tipo de vida sexual lamentável isso pode levar…), e ter corpinho de boneco plastificado ou de criança.

Ou seja, tudo que seja “atrito'', tudo o que fique no caminho de uma vida de boutique,  tudo o que não sirva para destruir o lado mais pulsante e menos Barbie do sexo e da vida deve ser ignorado, escondido ou eliminado de alguma maneira. É a corrente do “não-me-toque'', do chocolate sem açúcar, da cerveja sem álcool.

Deize Tigrona e seu statement são importantes nesse momento.  Mas, nesse contexto e pensando sobre essas questões, como tornar verdadeira a frase “a buceta é minha'', indo além do simples fato de ela estar entre suas pernas o que, sabemos, não garante soberania?

Se você, leitora, deseja realmente mexer nessa delicadeza toda, se coloque no seu próprio paredão.  Pense no porquê, mas pense a fundo, vá até onde dói mesmo, peça ajuda do seu analista (se você tiver a sorte de encontrar um que preste de verdade), converse com uma amiga, com um amigo, questione-se a ferro e fogo, pense.

Veja se, em vez de estar exercendo um direito, você não está cumprindo um dever, seguindo uma obrigação determinada por uma rede de fatores externos, imagens midiáticas e questões pessoais mal resolvidas que estão escravizando seu pensamento.

O bom é que essa fórmula serve para desenvolver um processo de tomada de consciência de nossos atos e desejos que dá para quase tudo na vida, então não vai ser tempo perdido.

E quando você ficar satisfeita ao menos com alguma de suas respostas, e mesmo que essa resposta revele algo que você não gostaria de admitir sobre si mesma, saia dançando no passinho e  cante “é minha, é minha, é minha''.


Hipster ou mendigo?
Comentários Comente

Vivian Whiteman

Esquema blogueiro para entender por que essa piada é uma aulinha rápida de moda:

Tradução:

O Mendigo usa

barba

cardigã

jeans surrados

(carrega uma revista de bairro)

O hipster usa

barba “irônica''

cardigã de grife

jeans novos com efeito surrado

(carrega um iPod ou ipad)

Como interpretar

O que os “donos'' da moda dirão:

1 – É tudo uma questão de ponto de vista e de inspiração

2 – Trata-se de uma versão sofisticada do “estilo das ruas''

3 – A ideia não é ridicularizar os mendigos, mas se inspirar numa certa forma “desencanada'' de encarar a moda

4 – Embora os looks sejam idênticos, os materiais usados na roupa do hipster são obviamente mais nobres e, na verdade, os looks não são idênticos, são similares porque dividem uma mesma “referência''

5 – Ninguém está querendo sacanear os mendigos. Ninguém está querendo ser politicamente correto. Nem incorreto. A inspiração é “bacana'', assim, de modo neutro.

O que um fashionista sincero dirá:

1 – É uma diferença de conta bancária, basicamente

2 –  A versão não é tão sofisticada assim. Afinal, trocar o material e o corte ruins por outros melhores não é exatamente uma ideia brilhante…

3 – A ideia é brincar de ser pé-rapado e ferrado sem ter de passar por isso. Uma espécie de café descafeinado versão fashion. Ou seja, o mendigo parece estiloso e tem esse ar largado interessante (talvez seja a falta de comida, dinheiro e casa, hã? Que tal essa explicação? A colocação aqui, como a barba, é irônica…), mas ninguém quer ficar na sarjeta para entrar no modelo, correto?

4 – A pessoa fictícia 1, considerada “fora de moda'' dirá: poxa, cara, mas essa roupa tá meio de mendigo. A pessoa fictícia 2, “com informação de moda'', notará a ironia da barba e dirá que a pessoa 1 é careta e preconceituosa. Uma pessoa que trabalha no banco e ganha salário mínimo provavelmente não poderá ir trabalhar com o look hipster. O herdeiro do banco ou um top publicitário, sim

5 – A moda está sempre em cima do mudo quanto a questões éticas e polêmicas. Quando uma empresa toma partido, em 99,9%  é porque essa mudança dá lucro

A dica que fica

Muitas vezes, a ironia da moda funciona, digamos, como um mini tapa-sexo estilo Carnaval para a luta de classes que se espelha na questão das roupas_ a coisa está toda ali exposta, mas, oficialmente, ninguém está mostrando nem vendo nada.

 


Carminha x Nina, o remix do xadrez em branco e preto em “Avenida Brasil”
Comentários Comente

Vivian Whiteman

A saga de “Guerra nas Estrelas'' nos ensinou uma coisa: os bonzinhos vestem branco e cores claras, e os malvados vão de preto e outros tons escuros, certo?  Não segundo as figurinistas de “Avenida Brasil''.

Bom,  George Lucas e sua equipe seguiram a tradição.  A escuridão,  a noite e suas cores foram identificadas desde tempos muito antigos a sensações de medo, insegurança e às trevas,  no sentido mais “terror japonês'', mais infernal, do termo.

Já o branco, enfim, dispensa explicações. A ideia de luz, o esclarecimento, o iluminismo,  sobram referências históricas, culturais e artísticas para dar conta das virtudes dos tons claros e luminosos.

Mais, oi, oi, oi, de volta à novela. Carminha, a vilã, veste branco. E bege, pitadinhas de rosa. Nada mais meigo, nada mais límpido.

 

A primeira explicação é a seguinte. Bom, enquanto vilã, Carminha está disfarçada de Jedi, de lado bom da Força. Mas será?

Ok, ela foi bem-sucedida até agora em pagar de boa esposa e de mulher decente, ao menos para o marido e mais uma penca de enganados.  Mas geral sabe que, até certo ponto, Carminha não é flor que se cheire.

O branco e o rosa, numa segunda análise, parecem quase uma provocação. Como é quase uma provocação, um fetiche, uma noiva casar de branco nos dias de hoje. As noivas virgens que me perdoem, mas, gatas, vocês são exceção. Uma exceção que eu pessoalmente não recomendaria, mas, enfim, cada um com suas convicções, respeito.

Viajando um pouco na referência, e o que seria da moda sem a viagem, me lembrei do vestido de casamento da cantora Gwen Stefani. Assinado por John Galliano, vejam que politicamente incorreto em retrospecto… Mas lindo, lindo de morrer.

Branco, com a cauda manchada de rosa, o vermelho diluído… Como quem diz,''bem, o branco está meio manchado de sangue porque…''.   Conhecer no sentido bíblico, vocês sabem…

Mas a Carminha, claro.  Seria mais ou menos óbvio se a lôra se vestisse de preto, de roxo, se fosse uma prima de Cruela DeVil, tipo a Melissa de “Amor Eterno''?

Carminha é uma vilã debochada.  Seu uniforme de rica boazinha emergente é um falso disfarce, quase uma fantasia de Carnaval, um tapa na cara da sociedade, como são suas ações. É como se ela perguntasse: “E aí, otários,  hipócritas, até onde vocês vão me deixar ir com essa farsa, até quando vocês vão fingir que não sabem?''.

É aí que entra Nina/Rita, uma mocinha bem específica. Das roupas ao uniforme de empregada, Nina veste preto. Vinho. E vermelho-sangue. Nina vem de Darth Vader, de Império, o lado negro da Força.

Mas, por que, se ela é be boazinha? Bom, boazinha? Ela não é boazinha mesmo. Vingativa, invejosa!!! Magoada e torturadora de mão cheia. Suas intenções e atos, no entanto, são movidos, teoricamente, pelo desejo de justiça. Mas igualar os meios do inimigo justificam os fins da justiça?

Às vezes, sim. Para nos mantermos na ficção, veja Uma Thurman, a Black Mamba de “Kill Bill''. Ah, ali temos um uso digno de fins violentos para a execução de um plano de justiça.  Na linha legítima defesa, embora não nos termos específicos da lei. A lei, sabemos, às vezes é insuficiente, não é mesmo?

Mas e Nina? Nina que quer os privilégios de dondoca de Carminha? Nina que se acha a heroína, mas cada vez mais quer tomar o lugar da vilã? Nina confusa e cega de ódio. Uau!!!

Nina e seu colarzinho de cozinheira boazinha, do tipo que ama as colheres que pilota. Nina, um verdadeiro urubu de avental.

A mocinha-vilã é de fato um achado da teledramaturgia.

E a relação entre ela e Carminha é ainda melhor e mais rica.

Nina é a redenção de Carminha. É, apesar de tudo,  o alívio, o castigo que toda vilã secreta ou inconscientemente pode desejar. Aquela que sabe de tudo e exige reparação.

Sabe-se lá o que os roteiristas incríveis dessa novela vão arrumar para o final das duas.

Mas essa batalha maluca entre o branco e o preto, o remix do xadrez clássico proposto por essa novela, é de prender a respiração e deve ter um desfecho à altura dramática de  “Luke, I am your father''.

George Lucas aplaudiria.

Bjs,

VW

#nerrrvosa


LEVANTE A CABEÇA, MASSA-RAINHA
Comentários Comente

Vivian Whiteman

Já faz mais de um ano que o príncipe William se casou com Kate Middleton, em abril de 2011, no que foi noticiado mundialmente como “o casamento do século''.  Começava a ali exportação da imagem de uma nova princesa, mesmo sem título oficial. A princesa  é a mulher do príncipe e, para quem não está interessado em detalhes chatérrimos de coleirinhas de nobreza, basta.

Neste ano, nova festa real. Não só os ingleses, mas todo o mundo celebrou o jubileu de diamantes da rainha Elizabeth. Os itens comemorativos da data viraram item cult de decoração mundo afora.

E, na moda, o eterno tema da realeza fez mais um de seus revivals. Desta vez, um bem poderoso.  A “princesa'' Middleton virou ícone de estilo e está com tudo. Já a rainha velhota voltou a ser lembrada como exemplo da pretensa elegância eterna dos donos do castelo. Não se trata, fique claro, dessas mulheres em si, mas da ideia de que o mundo renovou sua vitrine de soberanas (em nova embalagem, mais simpática e modernizada), ideia essa que tomou as coleções, de diversas formas.

Pode ser como na Chanel, com a coleção realeza francesa do resort de Karl Lagerfeld. Pode ser como a nova coleção de Raf Simons para a alta-costura Dior, com as rainhas da alta-sociedade. Pegue a coroa e acrescente o tempero da casa, é assim que funciona.

As Mariazinhas Antonietas da Chanel  são tão descoladinhas, tão rebeldes… As ricas de Simons são tão práticas com seus vestidos que viram tops de luxo pra usar assim, casualmente, com calças,  tão ousadas com seus mamilos estilo “farol aceso''… Só que não.

As  mocinhas Chanel estão dizendo: somos herdeiras. As mulheres da Dior estão dizendo: somos herdeiras. Herdeiras de quê?  Das muitas faces da concentração de renda mundial. A realeza antiga, a nova realeza do capital, ora juntas, ora separadas, farinha do mesmo brioche. Em linguagem fashionista: “as ryca''.

As imagens de princesas e rainhas fascinam a moda (e não só ela) há séculos porque falam de modelos de elegância que foram impostos ao longo dos séculos. Vale lembrar, no entanto, que às custas de massacres do povo, da “ralé cafona''.  “Só os nobres, os ricos e seus representantes é que têm bom gosto. Só eles [os detentores do capital] podem gerar rainhas, princesas do estilo'', é como se fosse esse um dos subtextos dessa tendência.

Vejam que,nesse contexto, não importa se, em si, Kate Middleton não passe de um inglesa bonitona, arrumadinha e esguia. Não importa que Maria Antonieta vivesse enfiada em perucas nojentas e cheias de pó. Não importa se Anna Wintour  faça o estilo cabelão capacete e paute o que é chique de acordo com acordos publicitários interessantes para grupos bilionários. O lugar que elas ocupam é que é o ditador de modas, um lugar de poder.

No momento, por exemplo, as rainhas da moda estão olhando para um certo conceito de moda popular.

Um movimento, sabe-se, motivado por razões comerciais, embora envolva uma série de outros elementos.  É preciso cativar mais consumidoras, usar elementos estéticos que tenham um pé numa leitura geral do que é  “massa''.

E pra quê? Elementar, minha cara fashionista.  As soberanas dizem: “vejam, garotas agora NÓS, estamos dizendo que vcs estão na moda. Mas do NOSSO jeito e com os NOSSOS termos''. Mudar para continuar o mesmo, ô ideia que vem rendendo século após século…

Vai vendo…

E daí que dia desses eu vi o clipe novo de uma cantora muito talentosa. Uma moça linda de São Paulo chamada Lurdez da Luz, já ouviu? Não? Ah, por favor, vá atrás dela.

Lurdez lançou um novo clipe chamado “Levante''. O figurino é bacana, meio passista, meio periguete, meio militar. Um dos looks inclui uma peruca branca dessas de rainha antiga, colar imitando joias “da coroa''.

Poderia ser só mais uma gracinha, não fosse a música. Fala de poder popular. De mulheres (e homens também, claro) combatentes. Chama pra briga, bate no peito. Grande garota, essa Lurdez, cheia de referências boas,  de mãos dadas com o rap, papo reto.

Veja o clipe aqui:

watch?v=Hk6Ou10-eBA

O clipe me fez pensar que passou da hora de reescrever esse lance de rainha. A música da Lurdez, tão acertada na letra, na batida e no timing, me inspirou uma imagem de rainha popular no sentido de transferência do lugar de poder. Chega de troninho, sabe?

Chega de soberanos que reencarnam na vida e nas fantasias da moda, sempre com carinhas meio diferentes, mas o mesmo discurso. Chega de endeusar o uniforme de poder e os manuais de certo e errado de uma elite que se deu, entre muitos outros poderes, o de decidir o que é bonito, o que é chique.

Em vez de um grupinho de meia dúzia ditando regras para uma multidão de bilhões, que tal elevar a figura desses bilhões ao lugar de quem tem o poder de decidir? Rainha da massa é teu passado, que tal uma massa-rainha? Ideia a considerar seriamente, hein?

Proletárias, moças e mulheres trabalhadoras, uni-vos, nem que seja, por enquanto, para repensar a tirania do estilo. Como diz a Lurdez, a levada é pra levante.

Pensar nunca é tendência na Vogue America (nem em um monte de revistas que pagam de moderninhas, mas seguem a mesma cartilha).  Mas, enfim, vocês estão nessas ainda? Ai gente, sai desse  complexo de Europa Antiga, se liberte desse encosto de Tio Sam que não te pertence. E cuidado com os fake revolucionários (inclusive entre os “sustentáveis'') que são a nova face do castelo.  Massa rainha é o que liga, vai por mim que essa é boa, vamos desenvolver essa ideia, hein, Brasil? Fica a dica.

Bjs pensativos

Vivi


O MISTÉRIO DA SAIA MULLET
Comentários Comente

Vivian Whiteman

O mullet é um corte de cabelo bem do controverso. Ficou famoso como “cabelo de argentino'', assim, com um certo desdém por causa da birrinha estilo 5ª série entre brasileiros e hermanitos.

 

 

Gente incrível tipo Patti Smith e David Bowie já tiveram mullets. Chitãozinho & Xororó também (ah, vai, gente, eles são bem legais; é roots, Brasil!). Enfim, dependendo da cabeça, o corte até que tem seu charme.

A Wikipedia atribui a popularização do termo aos Beastie Boys, vejam só.

Mas o termo voltou à mídia, não nas cabeças, mas cobrindo bundinhas mundo afora. O mullet virou nome de saia. Não de qualquer saia, mas da grande mania da hora entre moças fashionistas “around the world''.

A tal saia acompanha o formato do corte: mais curta na frente (tipo uma franja) e mais longa atrás (o famoso “rabinho'').

E diz que a coisa vem de longe: Nero, sim, o imperador romano, seria fã de um corte similar, segundo relatos históricos sobre sua figura.

A saia mullet tem um pouco desse jeitinho Nero “imperador-lóki'' de ser, sabe?

O moço é suspeito até hoje de ter incendiado Roma, embora isso jamais tenha confirmado. E há ainda o mito que, durante o incêndio, ele botou um figurino babado e começou a cantar entre as chamas. Sabe Madonna em “Like a Prayer''?

As moças de saia mullet também são vistas como suspeitas no tribunal da moda. Suspeitas de “cafonaghy'', o novo nome fashion para cafonice. Mas, como Nero, talvez sejam inocentes dessa acusação.

A saia mullet tem alguma coisa de princesa, de imperatriz. Mas não de uma soberana assim certinha e muito fina. É a saia da princesa loucurinha, que saiu meio rasgada, meio faltando um pedaço da roupa, querendo fazer a doida.

É a gata que queria botar uma mini com uma cauda de vestido da Lady Di, manja?

A saia mullet tem a ver com um certo momento em que a moda tenta, de novo, reabilitar símbolos antigos e decadentes, como a realeza, dando a eles um certo verniz cool e moderninho.

Quer ser uma princesa firmeza mesmo? Então, além de botar a saia de doidinha, aproveite e dê uma botinada na coroa, certo?

Bjs

VW

 


Parte 2
Comentários Comente

Vivian Whiteman

 

Pare, respire, dê um pivô. Tá de boa, vai?

 

Parte 2  – Que vantagem Maria leva?

 

Daí se desenha um retrato interessante. No Fashion Rio, evento de coleções que em sua maioria são “remixes'' assinados, há um elemento de colonialismo, da admiração dos locais pela “metrópole'' colonizadora.

 

Por um  lado, assumir essa relação talvez seja um primeiro passo, senão para mudá-la, para vivê-la da melhor forma possível. Sim, o Brasil é um país jovem perto do Velho Mundo, foi colônia por muito tempo e escravo do FMI e das grandes potências decadentes até anteontem. É normal que a moda ainda esteja refletindo esse processo histórico.

 

E a moda francesa, a moda italiana, são mais antigas e mais experientes, têm mais recursos em vários sentidos, da bagagem histórica à indústria organizada. Também é natural que não só um certo grupo de consumidores, mas que muitos designers e equipes de estilo, as vejam como “irmãs mais velhas e chiquérrimas'',como as garotas mais cool e populares da escola.

 

Mas, mano, por outro lado, o jeito que a gente vê o outro (e o que achamos que pensam de nós) é que ajuda a definir o que a gente é. Tem um caminho sendo trilhado, vão vendo, vamo acordando.

 

E para quem fala tanto de informação e cultura de moda, saibam que,  do bê-a-bá às funções mais complicadas, o cérebro aprende via repetição. Assim, as grifes de difusão que hoje podem entrar no orçamento da classe C são responsáveis por um trabalho de treinamento do olhar do consumidor, na base da repetição do que já foi mostrado pelas grandes semanas internacionais e por alguns criadores brasileiros. Digo criadores no sentido mais tradicional de como isso é compreendido na história da moda (sim, eles existem no Brasil, e são muito muito bons!!! Aguardem post).

 

Então, que tal os comentadores virarem esse disco de chororô e indignação meia-bomba (ohhhh, as grifes copiam)? E que tal o Fashion Rio abraçar as classes B e C? Os anunciantes estão loucos por esse público. Hellooooooooo.

 

E, fashionistas, nem só de roupas perfeitas e babado conceitual se faz o guarda-roupa e o mercado. É claro que o FR pode manter sua porção de grifes para o público mais rico e até de conceituais, seja lá o que isso for nesse caso. Mas esse não seria o foco.

 

Vamo partir pra briga, Brasil!

 

Por que não existe na passarela nenhuma grife com culhões de assumir o estilo Suelen, o naipe Valesca Popozuda? Tipo uma marca sucesso do baile, como foi a Gang.  Por que ignorar o batalhão de moças de calça justa com meia esportiva branca usada por cima, esticada até quase o joelho? Alguém que olhasse pra isso com inteligências viraria cult em dois tempos.

 

Por que em geral não se aproveita o que tem de mais fora das regras na moda de rua? Todos perdem sendo tão metidinhos, com tanto medinho de ser cafona. Até a primeira maison gringa copiar, claro… Tererê com pena é caro hoje em dia no Upper East de NY… Brinco de pavão do camelô de praia tá nas butiques francesas. Fica a dica para os bons entendedores, assim, uma passadinha real do que está acontecendo e vou comentar em post futuro.

Agora o twist do limão, a mente do vilão, o avesso do avesso do avesso:

 

A popozuda e a malhafunk cariocas não seriam bons exemplos de sucesso do fenômeno “antropofágico'' que citei mais acima? Elas surgem de um desejo pela imagem Los Angeles-Miami das gostosas, vinda da “linha evolutiva'' (cof) das bombshells. Mas o lance é que essa imagem é tão modificada no processo pelo qual o gosto e o comportamento locais se apropriam dela, que se transforma em algo novo. E isso é…criação!

 

Ou seja, vamos confrontar a realidade, Brasil. Batendo de frente com todos os seus complexos, não só o Fashion Rio, mas a moda brasileira em geral, podem ganhar muito.

 

Aqui no pé do morro é nóis que tá, filha, se deu tilt é pq tá rolando

 

Post da próxima quinta: afinal, o que é chic? O que é cafona?

 

Vou ali botar meu top

Besos pras (sen)Suelens,

VW

 


Fashion Rio, mostre a sua cara!
Comentários Comente

Vivian Whiteman

 

Parte 1 – Mais um verão desfilado. E agora, José?

 

Chega de preguiça, se vc curte moda leia até o fim.

 

Babado e confusão essa edição do Fashion Rio que terminou no último sábado. Nada demais na passarela. O bafo rolou nos bastidores e nos comentários.

 

Acabo de receber o email de um leitor questionando o desfile da Aüslander e apontando semelhanças com a Givenchy. Muita gente veio falar da performance da grife Reserva, tipo “comercial de margarina'' moderno encontra versão de Glee feita pela oitava série B. Há também uma unanimidade sobre a falta de novidades.

 

Desde que comecei a cobrir moda sistematicamente e com exclusividade, o que foi lá pelos idos de 2005, todo mundo reclama desse evento. Digo, a história de cópias  e falta de novidades é recorrente. Poucos são os jornalistas que escrevem isso, no entanto. Nem sempre porque não queiram, mas porque muitas vezes não podem fazê-lo por conta dos compromissos comerciais dos veículos para os quais trabalham.

 

Pois bem, vou servir aqui de porta-voz das reclamações que me fazem e dar minha percepção desse balaio de gato fashionista.

 

Meus statements. O Fashion Rio vem desenvolvendo e tem, no momento, vocação para ser um evento de massa, direcionado sobretudo (o que quer dizer principal,ente, mas não exclusivamente) aos olhos do público. No momento, não é um evento que ofereça material suficiente para crítica de moda tradicional.  Por outro lado, é ótima fonte para analisar comportamento e opções de mercado.

 

Alguém dirá, ai, não entendi…

 

Vamos lá, step by step, uh-babe:

 

1 – O Brasil é um país de dimensões continentais, lembra disso na aula de geografia? Pois é… Daí que a massificação é desde sempre um ponto de partida para a difusão de qualquer coisa nessa nossa terra. O mesmo vale para a moda. Há as cenas e mercados regionais, mas a difusão de um moda que se pretenda nacional tem de passar por processos de massificação.

 

2 – Isso ocorre de várias formas. Uma delas, das mais efetivas, são as redes de shopping e as multimarcas. São elas que fazem circular um mesmo produto no país inteiro.

 

3 – Em termos de imagem, a grande difusora de moda do Brasil é a TV. São duas as maiores fontes espalhadoras de desejo mostradas na TV brasileira. A – As novelas da rede Globo B- Os blockbusters de Hollywood. Esse sistema depois será reproduzido em revistas especializadas e de celebridades, nos sites, gerando subcriadores de desejos, desde a editora de moda até a blogueira fashion. Mas não há Anna Wintour no Brasil que se compare à força de uma boa protagonista de novela das 20h/21h. Não há quem chegue perto disso, nem de longe.

 

Um salve para Marília Carneiro e todo o departamento de figurino da Globo, ali tem munição pra brigar com Deus e Diabo na terra do sol, Brasil!!!

 

4 – O Fashion Rio fica no Rio (c jura???), sede do Projac, a Hollywood local. Circulam pelo evento atores e atrizes, cantores, enfim, rola uma social forte  (deveria ser mais forte ainda). O que gera um desejo pelos convites, por estar no evento, por fazer parte dessa festinha, por ver as fotos, os vídeos E…por comprar as roupas, por menos inovadoras e preciosas que sejam, acredite, pouca gente realmente se veste querendo inovar horrores e pouca gente pode pagar pelo melhor corte, o melhor tecido.

 

Dito isso, vamos lá. O Fashion Rio dialoga com esses universos-chave para entender o Brasil: shopping center/multimarcas e indústria de celebridades. As grifes que se destacam lá fazem roupas de tendências já manjadas pelos fashionistas, mas que ainda estão sendo assimiladas pelo público em geral. E a maioria esmagadora de quem movimenta o comércio fashion está nesse segundo grupo.

 

O Fashion Rio tem duas forças. 1 – A moda praia, que é a melhor e a mais descolada do mundo, não há dúvidas. 2 – A difusão e a valorização dos grandes negócios de moda feitos para vender, em massa,roupa com informação de moda, mas sem grandes invenções.

 

Há algo que ninguém gosta de admitir, o que demonstra o quão jacu e complexada ainda é nossa mídia fashion, o que reflete a mentalidade  (e também os interesses mal escondidos) de muitos designers e empresários.

 

Um dos maiores trunfos do Brasil em termos de moda é sua vocação para fast-fashion, que vem em parte do nosso gigantismo geográfico.  Basta ver a força de C&A, Renner e até mesmo da Zara no país. Grifes como Colcci e TNG estão aproveitando esse fato e merecem respeito por isso porque, em termos de negócios,  fortalecem o mercado.

 

Desse bolinho, no futuro e com certas condições estruturais,  pode emergir uma nova H&M criada no Brasil. Uma nova TopShop. E por que não? Uma loja em cada Estado e já teríamos um novo megabusiness. Sem contar o potencial das grandes capitais. Vale lembrar que a TopShop, tão amada pelos fashionistas, só trabalha com tendências já dadas e desfiladas.

 

A TopShop, inclusive, tem uma linha mais chiquezinha que desfila na semana de moda de Londres…

 

A Colcci, aliás, deveria voltar a desfilar no Rio. Imaginem Ashton Kutcher, o quanto renderia a mais na mídia em solo carioca? Lá faria sentido um tapete vermelho, ia ser loucura e gritaria. E as demais grifes também poderiam abraçar sem culpa o truque da celebridade na passarela. É uma arma super válida quando se assume que o foco é valorizar uma roupa, assim, descoladinha.

 

O Fashion Rio deve se assumir como foco da social fashion, da praia e da roupa de difusão. Melhor ainda  seria acrescentar nesse bolo  um plus que faz TODA a diferença. O fermento da cópia abrasileirada. Da referência adaptada, como faz a TV quando compra programas gringos.

 

A cultura dominante (seja o star system americano ou as maisons europeias para as quais tanta gente  paga pau, com certa razão) temperada e mastigada segundo as características, necessidades e questionamentos locais. Estamos falando disso desde a Semana de Arte de 1922, não? O manguebeat fez isso. O tecnobrega faz isso. Os bons remixes de música eletrônica. O rap. Cada um acrescentando suas questões. Hello.

 

Mas, como jornalista, não vou fugir do samba. A mídia também precisa repensar a cobertura do evento. Lá não se propõe o último grito da tendência nem a perfeição arquitetônico-formal da roupa.

 

Vamos ver então COMO o Brasilzão se apropria dos gringos. De quem eles estão escolhendo copiar e o q isso significa? O que realmente pegou das tendências gringas e que estão sendo reproduzidas pelas marcas, e como isso pode ser um mapa do gosto local? Como está a fila da balada, qual é o look mais insano do baile funk, no calçadão o que as gringas estão comprando como suvenir, qual é a canga-sensação do povão turista, que marca está pagando qual atriz da Globo para ir ao desfile, enfim, a pauta é gigante e variada, tem pra todo mundo.

 

O governo do Rio criou, aliás, uma coisa chamada “estilo RJ'', campanha de valorização do charme local, com fins óbvios de exportação de todo o chamado lifestyle local. Hellooooo.

 

 

(continua)


Bowie, o gênio da moda
Comentários Comente

Vivian Whiteman

Eu amo David Bowie. Pra mim ele é um dos grandes caras da história do mundo, não só da música. Porque, enfim, a boa música é uma das grandes maravilhas do mundo, faz da humanidade um bando de primatas mais interessante. 

Bowie talvez seja um dos caras que melhor compreendeu o que é ser um astro pop. Desde muito cedo percebeu que a imagem e a música geravam uma química louca quando se metiam juntas nos palcos, principalmente naqueles onde se tocava rock.

Sua  fase glam, falando apenas das roupas, é ainda hoje uma das coisas mais sofisticadas que se fez em termos de moda em todos os tempos. Os figurinos das turnês de Ziggy Stardust e Aladdin Sane jamais foram superados. Talvez Madonna e Lady Gaga sejam as únicas a ter se aproximado disso. Mas sem alcançá-lo.

A questão não era supertecnologia, muito dinheiro nem nada disso. Além do mais, no final dos 60 e início dos 70, as marcas de moda não disputavam artistas com a mesma voracidade de hoje. E, saibam, muitos desses figurinos foram feitos por amigos de Bowie, gente que entendia o conceito e estava disposta a participar da festa.

Uma festa muito séria, apesar de toda a loucura, das drogas e da festa. Como todo grande artista da imagem, Bowie sempre zelou de perto pela construção de seus espetáculos, incluindo as roupas. Gente como Freddi Burretti e Natasha Korniloff. A mulher de Bowie, Angie, e até uma espécie de babá do filho do casal, Susie Frost.

As referências eram sofisticadas. Do top bailarino Nijinsky até o visual do filme “Laranja Mecânica'', de Stanley Kubrick. Macacões, bodies, glitter, muito brilho. Muitas peças eram feitas de materiais baratos, às vezes copiadas de outras mais caras. Outras, eram confeccionadas com materiais encontrados em lojas estilo “Tudo R$ 1″.

E.T., andrógino, mutante, sexualmente ambiguo. David Bowie simplesmente antecipou temas que viriam 10, 20, 30 anos depois de Ziggy Stardust. Não era só uma questão de estética, mas algo que dialogava diretamente com as letras, com a estrutura musical e também com o comportamento de toda uma geração. 

 Nos anos 80, Bowie mudou de personagem. Alguns disseram que ele havia se rendido ao mainstream, uma acusação acima de tudo, ingênua. Além de burra, é claro.

Bowie se apropriou de tudo. Dos yuppies, da nova vida moderna, do culto ao dinheiro. E botou tudo a favor de sua carreira, de maneira cínica quando foi necessário. Fez discos piores e melhores porque, de fato, a genialidade permanente é para os chatos. Os pontos baixos acabam empurrando os verdadeiros gênios a terrenos intocados. E se fez dinheiro com isso, tanto melhor para ele.

Bowie foi um imperador de outro mundo no filme “Labirinto'', um vampiro delicioso em “Fome de Viver'', sempre lindo, sempre impecável, um semideus de olhos diferentes. Pena que, por exigência de suas mulheres, consertou os dentes maravilhosamente assimétricos que só acentuavam sua beleza única.

Durante sua carreira, até hoje, vestiu peças de diversos estilistas. Um de seus preferidos, amigo pessoal: Alexander McQueen. Os grandes gênios, afinal, se reconhecem.

Bowie veste McQueen na capa do disco Earthling

E agora, dizem que Bowie está recluso e que pagam uma fortuna por uma foto dele. Ou seja, numa época em que todos fazem tudo para aparecer, em que as roupas são cada vez espalhafatosas sem nenhum conceito, de modo que as pessoas tenham de ver aparições lamentáveis de “artistas'' cof tipo Nick Minaj, Bowie mais uma vez saiu na frente. Ele ficou invisível. Sensacional. 

Ai, sei lá. David Bowie, te amo.

Bjs

VW

PS: Ah é, tá rolando uma mostra de filmes dele em SP. Vai lá

http://festival.culturainglesasp.com.br/

 


A Jovem Carrie ou Sex and the City Jr.
Comentários Comente

Vivian Whiteman

As fãs de Carrie Bradshaw, a jornalista-fashionista de “Sex and the City'', estão tensas. Está prestes a ser lançada uma série que contará a adolescência da musa das loucas por sapatos (e bolsas, e vestidos, e homens ricos, cof, digo, homens bonitões).

A atriz Anna Sophia Robb será a  versão teen da personagem em “The Carrie Diaries'', nova série da CW.  Fora o cabelo, é meio difícil imaginar que ela se transformaria numa mulher estilo Sarah Jessica Parker, mas, minha gente, esse é o reino da ficção.

Pensando bem, a série é uma espécie de “Star Wars – A Ameaça Fantasma'', só que em vez de nerds, o alvo são as moças fashionistas e simpatizantes. E em vez de mostrar como Anakin virou Darth Vader, vamos ver como a mocinha Carrie virou a top tendencista e colunista da “Vogue''.  Não estou dizendo que Carrie seja nenhuma vilã, antes que as fanáticas me furem com um Manolo-agulha. Enfim, vocês entenderam, a ideia é mostrar “como nasceu o mito''.

O engraçado é que nas fotos, já adolescente, Carrie parece uma fashionistas formada. É como se a adolescência dela fosse uma espécie de mundo “Gossip Girl'' (aliás, a nova série é dos mesmos produtores que criaram o mundinho de Serena e Blair). Porém, nos flashbacks que rolavam no próprio seriado e no primeiro longa da turma, que voltavam até a casa dos 20 anos das personagens, Carrie não parecia assim tão incrível… Sim, ela já seguia as tendências, mas existia um elemento cômico na situação.

A  jovem  Carrie mal acabaou de chegar a Manhattan e já está arrasando. Ela não faz “sex'' ainda, mas já ganhou a “city'', a atenção de um boy magia, amigas incríveis e roupas que toda adolescente amaria ter.  Assim é fácil, né, gente? Um pingo de realidade cruel nesse conto de fadas, please, senão perde a graça. Vamos aguardar.

Vamos esperar, enfim,  por um bafinho, uma cafonalha,  um trauma que seja. Tipo quando os irmãos Walsh chegaram a Beverly Hills no início do seriado noventista “Barrados no Baile''. Ou quando a riquinha nojentinha de “A Garota de Rosa Shocking'' pergunta à linda personagem de Molly Ringwald se ela compra as roupas dela “numa loja brega''. Não sabe do que estou falando? Pois recorra a São Google. Cultura pop também ajuda a entender o mundo, sabia?

E será que os caretas da TV americana vão mostrar quando Carrie, a mulher-chaminé, começou a fumar? Oh, dúvida atroz.

Fiquem ligados.

the-carrie-diaries-promo (clique aqui para ver o trailer da série)

Bjs, VW


O Sol acima dos hipsters e o verão do Best Coast
Comentários Comente

Vivian Whiteman

Best Coast tem sido minha nova banda preferida nos últimos tempos. Talvez porque eu esteja sonhando, desde o ano passado, com umas férias maravilhosas de verão que ainda não rolaram. E essas férias seriam um misto de passado triste e esperança bate-no-peito, sabem como?

E aí que recebi a notícia que Bethany Consentino, ou seja, o Best Coast em si, lançou uma linha de roupas para a Urban Outfitters, na minha opinião, uma das melhores fast-fashion e multimarcas do mundo.

Look da linha de Bethany

Ok, a Urban é meio hipster… E o Best Coast também… Serei eu uma hipster enrustida? Ah, por favor. Essa coisa de hipster é um saco, e não é porque os marqueteiros inventam um novo nicho de mercado que a gente precisa fingir que não gosta de certas coisas só pra não entrar na dança.

E deixem pra lá essa história de hipster, ô coisa chata.

Bethany diz que se inspirou nos anos 90 para criar a coleção. Mais exatamente em filmes tipo “As Patricinhas de Beverly Hills'' e “Jovens Bruxas''. Quem, como eu, era adolescente na época, vai catar rápido o que isso significa.

Os 90 são a bola da vez na moda, disso você já deve saber. Mas, afinal, o que foram os 90 em termos de moda? Um tempo de tentar rever certos clássicos a partir de um viés decadente. Meio rindo, meio chorando.

Os grunges de um lado, com os cardigãs de vovô esfarrapado, o jeans rasgado, as botas de exército detonadas. Uma mistura do almofadinha dos anos 60, o largadão 70 e o soldado, passado por um triturador de referências. Também estavam lá os clubbers, uma versão do look psicodélico só que sem esperança, uma espécie de hippie que em vez do flower power abraçasse o slogan “no future'' dos punks. A estética do ecstasy, dos paraísos químicos sem causa.

E onde se encaixa a coleção de Bethany?

 

Bethany canta

Filmes como “Patricinhas'' e “Jovens Bruxas'' são mais interessantes do que parecem. Falam de uma geração de mulheres que também passou no liquidificador os estereótipos femininos. As garotas populares da escola que não queriam ser burras, fúteis e vagabas. As não tão populares, as esquisitas, que em vez de serem “queimadas'' feito antigas bruxas, resolveram botar pra quebrar. Garotas perdidas entre a promessa de nunca crescer e os papéis sociais lamentáveis oferecidos pelo mundo adulto.

Não se esqueçam que, nos anos 90, bandas como Hole, Bikini Kill e L7 renovaram as ideias que as moças tinham sobre feminismo e liberação feminina. Ok, parte delas se mostrou equivocada, mas os erros fazem parte da coisa. E, é preciso ressaltar, muitas moças de corações aflitos sofreram menos por conta das músicas que essas garotas cantavam. No Brasil, bandas como o Pin-Ups fizeram a ponte com esse tipo de som, abrindo caminho para outros grupos.

Courtney Love nos primórdios do Hole

No cinema, Winona Ryder, Liv Tyler, Brittany Murphy (RIP) e outras gatas viviam papéis de moças confusas em filmes indie cheios de música e dúvidas.

Winona Ryder, a shoplifter mais linda do mundo

 

Os 90 também liberaram a androginia na pista, os meninos e meninas se perguntavam afinal o que era ser homem ou mulher, uma das perguntas mais importantes da psicanálise e, portanto, da vida. As respostas ainda estão sendo construídas, por cima de toda a imbecilidade, por cima de todo o preconceito e por cima de todas as dificuldades reais que esse tipo de questionamento envolve.

Foram bons os péssimos e decadentes anos 90, sabiam? Porque ao menos havia a consciência da crise, havia certa consciência do horror e, com pouca esperança, chutava-se portas como se não houvesse amanhã. Ok, talvez seja um pensamento nostálgico, mas há verdade nele. Mas aí chegou 2001 e o mundo se retraiu com medo da tragédia televisionada. Com a ameaça furada do Hollywood nuclear.

A moda não criou nada disso, mas refletiu tudo isso.

Então talvez seja interessante revermos, agora, mais de dez anos depois do 11 de Setembro, que abriu as portas para uma nova era de trevas, os mágicos anos 90. Sementes estavam sendo plantadas lá.

Não será uma coleção da Urban que vai mudar o mundo, temos certeza disso.

 

Jovens bruxas

Mas eu quero aproveitar essas minhas férias de verão, que virão, pra ouvir Best Coast e pensar no que foi interrompido pelo medo de viver. As músicas de Bethany fazem pensar num lugar tão bom que não existe. Como as minhas férias de verão utópicas: podem até acontecer mas não serão como são na minha mente. Isso não me impedirá, no entanto, de tirá-las. Entenderam? Não? Então leiam de novo, está tudo aí. Tentativa e erro, tentativa e erro, o segredo está na repetição, não na fórmula. A moda ajuda tanto a entender isso, porque, como diz nossa guru Costanza Pascolato: “na releitura de época tem sempre algo de diferente, muito discreto, é aí que devemos parar os olhos''.

Como a moda, a vida é feita de releituras. Aliás, a moda não faz nada que não seja refletir a vida. Por isso é bom ficar de olho em quem está controlando o espelho. Fique atenta, amiga, faça você mesma o seu Sol de verão.

E não se esqueça de abrir as asas quando encontrar outra andorinha tru  😉